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Todo cuidado é pouco

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Do alto das minhas mais de sete décadas vividas – a maior parte delas aqui em nosso torrão natal – impossível que não os tivesse conhecido e, pior ainda, que com eles não tivesse convivido. Claro que não é tarefa fácil ter nossos canais auditivos sangrados pelas parlapatices desses vaidosos desinformados que, com suas suposições mentirosas, tentam cortar as esperanças e os sonhos alheios. Dou-lhes o epíteto de bocas-malditas. De se lamentar, a constatação de que a ciência, com todos os seus avanços, não tenha encontrado e, quem sabe, jamais encontrará, alguma droga que os extirpe definitivamente.

E, em assim sendo, dia desses e eu, caminhando pelas ruas, não tive como me desviar da trombada com um membro dessa incômoda confraria. O festival lamuriento teve de tudo. Aí, por ser notícia fresca, sobrou para um empreendimento imobiliário que obteve grande sucesso quando de seu lançamento. O boca-maldita, não acreditando em nada que seja progresso e, muito menos, em qualquer ser humano, sentou o malho, bem ao seu estilo. Não me restando alternativa, deseducadamente, retirei-me do pedaço e fui cuidar dos meus sonhos e esperanças. Claro que ele não ficou só, pois tem sempre a sombra da maldição a acompanhá-lo quando de suas empreitadas.

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O episódio me faz lembrar um caso contado na minha afoiteza literária que tem o título de Criando casos 2 e que comprova a atuação desses parlapatões de há muito pelas bandas de cá e que transcrevo a seguir:

Com o velho Venício a coisa foi de lascar. Ele, representante comercial e nem tanto escolarizado e esclarecido, comprara, quando do lançamento, alguns lotes de terreno situados num tal Bairro Bom Pastor. Juntando alguns caraminguás economizados, efetuou o pagamento do sinal de negócio. O saldo devedor foi dividido em suaves e inúmeras prestações mensais. Belo dia ele se aboleta num bonde da linha Alto dos Passos e vai dar uma espiadela no andamento das obras de terraplenagem do noivo bairro. Pra seu azar, senta-se ao lado de um próspero industrial da cidade e líder comunitário. Ficando sabedor da aquisição feita pelo afoito e incauto companheiro de viagem, só faltou epitetar-lhe de otário. Quem, berrava o bem-sucedido empresário, travestido naquele momento em mestre-conselheiro, iria residir naquele fim de mundo conhecido como Lamaçal. Venício, desesperado e sentindo-se lesado pelos empreendedores visionários, manda-se para o escritório da empresa loteadora e pede para cancelar a transação. Concorda, para que tal ocorra, em arcar com todas as despesas de emolumentos, registros, corretagens oficiais e ainda perde o dinheiro pago como sinal de negócio. Um baita preju. Neste caso, aconteceu de o Venício ter embarcado no bonde errado.

Fica o registro de que todo cuidado é pouco quando de eventuais trombadas com algum membro dessa sinistra confraria dos bocas-malditas.

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