O Papa Francisco deixou-nos um verdadeiro tesouro de ensinamentos. Neste ano, em que nosso país escolherá seus governantes em meio a turbulências que dividem a sociedade, é muito oportuno retomar sua encíclica Fratelli tutti, que aponta a política como decorrência ética do mandamento do amor. Ele lembra que, desde as primeiras comunidades cristãs até nossos dias, os seguidores e seguidoras de Jesus se esforçam em cumprir esse mandamento. Nem sempre e nem todos fazem isso, mas ninguém tem dúvidas de que a caridade é o sinal mais evidente da comunidade cristã. Nosso grande desafio é estender o alcance do amor a toda a humanidade. Coloca-se então a questão: como alargar o mandamento do amor ao próximo para chegar a pessoas que nem ao menos conhecemos?
Responde Francisco: “É caridade acompanhar uma pessoa que sofre, mas é caridade também tudo o que se realiza – mesmo sem ter contato direto com essa pessoa – para modificar as condições sociais que provocam o seu sofrimento. Alguém ajuda um idoso a atravessar um rio, e isto é caridade primorosa; mas o político constrói-lhe uma ponte, e isto também é caridade. É caridade se alguém ajuda outra pessoa fornecendo-lhe comida, mas o político cria-lhe um emprego, exercendo uma forma sublime de caridade que enobrece a sua ação política. [182]
São formas bem diferentes do mesmo amor ao próximo, que devem se complementar. Na primeira, o amor tem um destinatário individualizado; na segunda, o amor beneficia todas as pessoas – conhecidas ou não – que precisem atravessar o rio. A partir desse exemplo, Francisco vai mais longe afirmando que “a grande questão é o trabalho. Por isso, insisto que ajudar os pobres com o dinheiro deve sempre ser um remédio provisório para enfrentar emergências. O verdadeiro objetivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho”. [162.]
O Papa retoma a conhecida fórmula de que “para matar a fome do outro, é melhor dar um anzol e ensinar a pescar do que dar o peixe”, mas vai além dela. Se o local de pesca estiver cercado ou contaminado por agrotóxicos, não adianta ter o equipamento e saber pescar. É preciso, antes, ter livre acesso ao pesqueiro e preservar a vida das águas. Aí entra a política como “forma sublime de caridade” que proteja nosso próximo da ganância dos poderosos. Criar, defender e implementar políticas públicas que promovam a distribuição de bens e não deixem pessoas desvalidas na miséria, é uma forma sublime de Caridade.
O processo eleitoral é o momento em que todos somos convocados a escolher quem vai exercer os cargos no Executivo e Legislativo, e o eleitor ou eleitora precisa estar bem informado sobre as regras políticas onde a orientação do partido tem mais peso do que a orientação e as qualidades individuais de quem exerce o cargo. A Igreja, que não pode estar ligada a partidos – e goza da credibilidade social –, tem uma condição privilegiada para exercer esse serviço educativo e precisa se dispor a realizar esse serviço à sociedade. E nesse serviço nós, leigos e leigas, não podemos nos omitir.
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