…a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam – José Saramago
Não é mais possível tapar o sol com a peneira. Nossa sociedade vive hoje, com impacto mais agudo na adolescência e juventude, uma crise de perspectiva de futuro, um momento de falta de sonhos. Não falo dos sonhos de consumo, pois esses estimulam mais o estado de coisas que temos observado. Falo da construção coletiva de um mundo melhor, onde as pessoas vivam, e não somente sobrevivam.
Sou professora. Tenho visto que mais jovens e crianças estão frequentando as escolas, seja por imposição do Estado, seja por políticas assistenciais que estimulam as famílias a enviarem seus filhos à escola, não importa. Isso é bom.
A questão é: as escolas e profissionais de ensino estão preparados para receberem esta nova demanda? Os governos se prepararam investindo e formulando novas políticas para absorver e oferecer educação de qualidade e cidadã a estas crianças? Em minha opinião, não.
As escolas públicas estão se tornando o ponto onde os problemas que vitimam nossa sociedade deságuam. Dar aula hoje é, mais do que nunca, uma profissão de fé. O reconhecimento do profissional de ensino tem que ser arrancado à base de muita luta, quando deveria ser promovido pelo estado, através de suas administrações.
Casos de violência nas escolas, tráfico e péssimas condições estruturais foram noticiados por este jornal. Jovens assassinados por seus iguais, e, outros, jurados dentro das escolas. Como nos ensinou Paulo Freire, a educação não vai resolver os problemas da sociedade, porém, sem ela, tão pouco há possibilidade de resolvê-los.
Quem mais terá que morrer para que a sociedade acorde? Um filho da classe média? Um professor? Os que se foram são nossos iguais, não importa sua cor ou classe social. Chega de banalizar e fingir que não é conosco, porque é conosco sim! Vivemos em sociedade e, mais dia menos dia, este estado de coisas pode nos afetar de forma tragicamente mais contundente.
O momento é de eleições, propício para este debate. Escolher bem em quem depositar nosso voto é fundamental. Contudo, a cidadania não se encerra ao pegarmos nosso comprovante de votação e sairmos da urna. A cidadania se constrói no cotidiano, na participação nas questões de nossa profissão, no nosso bairro, na nossa cidade e, por consequência direta, nas questões do país.
Você que é pai ou mãe, procure sua escola e participe mais. Ajude os profissionais que lá estão a organizar melhor o ambiente escolar e a cobrar dos governos uma escola digna que forme cidadãos. Vamos acordar! Tem gente demais dormindo além do tempo e antes da hora.
