Ao se aproximarem as eleições, o que se destaca amplamente é uma lamentável guerra de nervos, em que os adversários políticos são quase sempre taxados de ladrões, corruptos e maus elementos. Com isso, o debate e o diálogo sobre as necessidades do país ficam em segundo plano, ou mesmo inexistem. Reduzir a política a um campo de batalha revela o baixo nível intelectual e moral da sociedade em que vivemos. Qual a origem de tamanha degradação? Penso que a falência de uma adequada estrutura familiar exerce influência negativa, pois, se os próprios pais estão envolvidos em baixarias e agressões no campo político, os filhos tendem a compreender a política como uma guerra sem fim.
Corruptos, ditadores e insensatos infiltrados na política sempre existiram; contudo, a solução para tais distorções não está na guerra entre as pessoas, e sim na apresentação de boas propostas políticas que convençam pela força do bem, da justiça e da verdade. Quem agride o adversário acaba desmoralizado em razão dos malefícios da violência verbal e da carência de propostas. Dentro da ordem de uma nação democrática, cabe à justiça julgar e punir os criminosos. Mesmo as denúncias, às vezes necessárias, devem ser feitas de maneira respeitosa e pacífica. Quem troca o aprofundamento das boas propostas por uma atitude obsessiva de agressão cai na superficialidade e, com isso, em nada contribui para o bem da nação.
É verdade que muitas pessoas se revelam cegas, fanáticas e injustas em seus comportamentos políticos. Mas isso não significa que sejam necessariamente de má índole. Não se deve cair na radical polarização em que adversários políticos são considerados como inimigos a serem extirpados. Não nos esqueçamos de que existem circunstâncias e condições atenuantes que podem diminuir ou até anular a culpa das pessoas: ignorância, medos, influência de más companhias, força de certos hábitos e vícios desordenados, além de outros fatores psíquicos ou sociais. Consequentemente, um juízo negativo sobre uma situação objetiva não implica um juízo sobre a imputabilidade ou a culpabilidade da pessoa envolvida. Dentro da visão cristã, “mesmo podendo julgar que um ato é em si falta grave, devemos confiar o julgamento sobre as pessoas à justiça e à misericórdia de Deus” (Catecismo da Igreja Católica, nº 1861). Além disso, devemos respeitar as pessoas que pensam ou agem de modo diferente de nós. Respeitar não significa necessariamente concordar, aprovar e nem promover. Jesus Cristo reprova a atitude de desejar o mal aos inimigos (Mateus 5,43-44). Assim, o cristianismo “é incompatível com o ódio ao inimigo, como pessoa, mas não com o ódio ao mal que este pratica, como inimigo” (Catecismo da Igreja Católica, nº 1933). Evitemos, portanto, a difamação.
Temos o dever de irradiar a paz para que possamos encontrar soluções para os problemas sociais. Não é uma questão que pertence apenas aos políticos. Sem paz, não teremos condições psíquicas de colaborar com a nação. O tempo das eleições é um tempo de reflexão e de firme decisão sobre o futuro político de nossa pátria. Não votemos em branco, porque a omissão política prejudica a sociedade. É dever de todo cidadão colaborar com os poderes civis para o bem da sociedade, num espírito de verdade, justiça, solidariedade e liberdade. A submissão à autoridade e a corresponsabilidade pelo bem comum exigem moralmente o exercício do direito de voto, o pagamento de impostos e a defesa do país. A Bíblia nos ensina: “Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto a quem é devido; a taxa a quem é devida; a reverência a quem é devida; a honra a quem é devida” (Romanos 13,7).
“Se a autoridade pública, exorbitando de sua competência, oprimir os cidadãos, estes não recusem o que é objetivamente exigido pelo bem comum; contudo, é lícito defenderem os seus direitos e os de seus concidadãos contra os abusos do poder, guardados os limites traçados pela lei natural e pela lei evangélica” (Catecismo da Igreja Católica, nº 2242). O Apóstolo Paulo nos exorta a fazer orações e ações de graças pelos reis e por todos os que exercem autoridade, “a fim de que levemos uma vida calma e serena, com toda piedade e dignidade” (1 Timóteo 2,2).
Deve-se ao Papa São Clemente de Roma (século I) a mais antiga oração da Igreja pela autoridade política: “Dai-lhes, Senhor, a saúde, a paz, a concórdia, a estabilidade, para que exerçam sem obstáculos a soberania que lhes confiastes. Sois Vós, ó mestre, celeste rei dos séculos, quem dá aos filhos dos homens glória, honra e poder sobre as coisas da terra. Dirigi, Senhor, o seu conselho segundo o que é bem, segundo o que é agradável aos vossos olhos, para que, exercendo com piedade, na paz e na mansidão, o poder que lhes destes, Vos encontrem propício” (Catecismo da Igreja Católica, nº 1900).
* Luís Eugênio Sanábio e Souza é escritor.
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