Há uma pergunta que costuma provocar uma quantidade respeitável de indignação: quem fala português corretamente? A pergunta parece inocente, mas basta pronunciá-la para aparecer uma pequena polícia linguística. Há sempre alguém disposto a informar que determinada palavra “não existe”, que certa construção é “errada” e que o português de verdade, evidentemente, é aquele que ele aprendeu na escola.
Ferdinand de Saussure, linguista suíço que morreu em 1913, talvez achasse graça nessa pretensão. No Curso de Linguística Geral, publicado postumamente em 1916, a língua aparece como um fato social, compartilhado pelos falantes. Ela não pertence particularmente ao gramático, ao professor, ao dicionário ou ao sujeito que fala mais bonito no jantar.
O problema é que gostamos de imaginar que alguém manda na língua. Talvez porque gostemos de imaginar que alguém manda em alguma coisa.
O professor corrige. O dicionário registra. A gramática prescreve. A escola reprova. A Academia recomenda. E o falante continua falando.
É aí que começa a comédia. Uma palavra entra em circulação sem pedir autorização. Uma construção se espalha, uma pronúncia muda, uma expressão desaparece, outra aparece. Quando percebemos, aquilo que ontem parecia absurdo já está na boca de todo mundo. O idioma não convocou reunião para decidir.
Isso não significa que “vale tudo”. Uma língua possui regularidades, convenções, normas e diferentes registros. Há contextos em que certas formas são adequadas e outros em que deixam de ser. O problema começa quando confundimos a existência da norma com a existência de um soberano.
A norma culta pode ser ensinada. A língua, porém, não recebe ordens.
É por isso que o português falado no Brasil não precisa pedir licença para existir. Ele muda porque os falantes mudam. E os falantes mudam porque a língua é um ser vivo.
No fim, talvez a pergunta seja mal formulada. Quem manda na língua?
Ninguém.
E esse talvez seja um dos poucos casos em que a ausência de governo funciona perfeitamente bem.
* Jéssica Rodrigues de Oliveira é doutoranda em Linguística na Universidade Federal de Juiz de Fora, enquanto Matheus dos Reis Gomes é doutorando em Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto.
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