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Dilemas

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Tudo que é sólido desmancha no ar. Essa, que é talvez a melhor frase feita do pensamento ocidental, é capaz de explicar tanto os fatos mais triviais quanto os processos mais profundos da natureza da política. O Brasil passou de um sólido establishment, que gozava alto grau de aprovação da opinião pública – um bicho que todo político teme, mas que ninguém sabe bem onde mora -, para uma evaporada credibilidade de todo o sistema político, representado (eis sempre o problema da representação) pela assombrosa queda de avaliações positivas para a presidente Dilma.

O efeito das manifestações pode ser estendido ao sistema político, mas Dilma não foi poupada; desmancharam-se no ar as também assombrosas taxas de aprovação de que ela gozava. Dilma continua a principal candidata à sua sucessão, mas o páreo, decidido de antemão, foi reaberto, e seus principais adversários nada têm a ver com isso, e pouco podem fazer agora para lucrar com a queda da favorita. Afinal, sendo políticos, estão correndo o perigo de todos os profissionais do ramo: o monstro ameboide das ruas não é liderado, pelo menos por enquanto, por ninguém, e parece que vai continuar assim, até se partir em centenas de pequenos movimentos reivindicadores de causas mais ou menos públicas.

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Os movimentos recentes de rua do Brasil são um sucesso histórico sem paralelo no mundo ocidental. Os ganhos são o fato novo: o Occupy Wall Street acabou pelo frio e sem nada; os indignados estão sem emprego até hoje, e a Espanha, chafurdando nas ordens dos economistas da União Europeia (sempre se trata de cortar gastos sociais e devastar ainda mais o país para tentar gerar emprego); o Maio de 68 é a história de uma linda derrota. Já aqui foi completamente diferente. Poderia não ter funcionado, como de regra, mas, paradoxo, funcionou em relação a uma demanda prática (a tarifa de transporte urbano) e lançou o país numa onda de protestos políticos exitosos que se transmutou, mas não morreu.

No momento, estão se movimentando os organizados, os caminhoneiros, as ONGs de favela e os temíveis sindicatos. E aí, a pergunta: pode um plebiscito conter esse movimento e restaurar o comando de Dilma? Ninguém sabe agora, mas a reforma política deve ser respeitada como uma das muitas bandeiras implícitas nas lutas contra a corrupção. Uma reforma política parada há mais de uma década vai ter de se resolver, colocando o Brasil diante de um fato interessantíssimo: pode um cidadão, munido apenas do seu bom-senso, decidir entre o tipo de reforma eleitoral conveniente ao Brasil? Nenhuma democracia pode se dar ao luxo de ter uma população de especialistas em política. Não há como saber se as decisões coletivas são corretas, mas, para dirimir os conflitos, somos obrigados a implementá-las. Quase tudo na democracia deve ser, por causa disso, uma experiência institucional, sempre que for necessário, reexaminável.

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