Foi muito mais que um título: ao conquistar seu décimo campeonato na elite do carnaval da cidade (1988, 1996, 1998, 2001, 2004, 2005, 2008, 2009, 2010 e 2012), a Unidos do Ladeira igualou-se à Turunas do Riachuelo e encerrou a hegemonia de 33 anos da escola mais antiga de Minas Gerais. Com efeito, desde 1979, a Turunas do Riachuelo (vencedora em 1974, 1975, 1976, 1978, 1979, 1983, 2002, 2003, 2006 e 2007) repousava, cada vez menos tranquila, no panteão das grandes vitoriosas de Momo, observando, de cima, a movimentação irrequieta e resoluta de uma raposa astuta e ambiciosa.
Agora, empatadas, travarão, em 2013, uma luta muito particular pelo poder. Sem dúvida, é um ingrediente poderoso na promoção e revitalização de um carnaval que, via de regra, insiste em discutir coisas sem importância, como, por exemplo, deslocar a data do carnaval, antecipando-o ou postergando-o.
Na verdade, a preocupação dominante deveria ser a qualidade dos desfiles, este sim, cada vez menos eloquente; depois, refletir que foi a fórmula antiga, com dois dias de desfile para cada grupo, ocupando a avenida nos quatro dias de folia, que esculpiu nosso caráter de carnaval de interior, com regras e jeito próprios, garantindo-nos renome nacional, sem qualquer vínculo com o nauseante industrialismo do carnaval dos grandes centros; e refletir, também, que não se faz apuração poucas horas depois de encerrado o desfile: a sabedoria está em manter-se o suspense, deixar fluir as expectativas, as angústias, as apostas, enfim, criar a cultura e a paixão pelo jogo do carnaval.
Foi tudo isso que se desmontou ao se desprezar a fórmula antiga, uma fórmula que atraía turistas de todo o país, e que jamais se preocupou ou sofreu qualquer mossa pelo Rio de Janeiro. Ao contrário, a Riotur conferiu-lhe o honroso título de segundo melhor do Brasil, muito simplesmente.
As excessivas intempéries que se precipitam sobre as regras do carnaval da cidade levaram-no ao estado atual, amorfo e quase inodoro, sem poder de sedução às novas gerações, e que se pode traduzir como crônica de uma morte anunciada. Quanto ao desfile em si, caberá às coirmãs decidirem, ainda este ano, se aceitarão ser, apenas, coadjuvantes, ou se interferirão, diretamente, no duelo Ladeira x Turunas, construindo, para si mesmas, uma trajetória de igual retumbância.
