Tenho acompanhado, ao longo dos últimos anos, um número cada vez maior de mulheres que decidem adiar a maternidade. As buscas por estabilidade financeira, crescimento profissional, realização pessoal e relacionamentos mais maduros estão entre os principais fatores que influenciam essa escolha. Recentemente, as notícias sobre as gravidezes da atriz Anne Hathaway, aos 43 anos, e da apresentadora Sabrina Sato, aos 45, trouxeram novamente à tona uma dúvida muito comum entre as mulheres que atendo: até quando é possível adiar a maternidade?
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, mostram que, em média, a idade ao se tornarem mães aumentou nas últimas décadas. Esse movimento também é observado em outros países e representa uma importante transformação social. As mulheres conquistaram novos espaços, ampliaram suas possibilidades e passaram a fazer escolhas diferentes ao longo da vida. No entanto, os ovários não envelhecem no mesmo ritmo da sociedade. Embora nossos projetos pessoais e profissionais tenham mudado, a fertilidade feminina continua seguindo seu próprio ritmo biológico. Por isso, considero a informação e o planejamento reprodutivo fundamentais para quem deseja engravidar no futuro.
A partir dos 35 anos, ocorre uma redução progressiva na quantidade e na qualidade dos óvulos. Com isso, a gravidez natural pode se tornar mais difícil, além de aumentar o risco de alterações cromossômicas e de algumas complicações durante a gestação. É nesse contexto que a medicina reprodutiva assume um papel cada vez mais importante. Avaliação da fertilidade, análise da reserva ovariana, congelamento de óvulos e fertilização in vitro são alguns dos recursos que podem ampliar as possibilidades reprodutivas. No entanto, cada indicação precisa ser individualizada, considerando a idade, o histórico clínico, as condições de saúde e os objetivos de cada paciente.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de uma em cada seis pessoas enfrentará infertilidade em algum momento da vida. Esse dado reforça que o assunto não deve ser tratado como uma situação rara ou distante, mas como uma questão relevante de saúde. Sempre ressalto que a medicina reprodutiva não serve apenas para tratar a infertilidade. Ela também permite orientar, avaliar e auxiliar no planejamento familiar. Conhecer a própria fertilidade é uma forma de ampliar as possibilidades de escolha e tomar decisões mais conscientes sobre o futuro.
Casos de mulheres conhecidas que engravidam após os 40 anos podem gerar identificação, esperança e até a impressão de que a idade deixou de ser um fator importante. No entanto, cada história é única. Muitas vezes, não sabemos quais caminhos, tratamentos ou dificuldades fizeram parte daquele processo. Não existe uma idade ideal que possa ser aplicada a todas as mulheres. O mais importante é que cada uma tenha acesso a informações de qualidade e acompanhamento médico adequado para tomar decisões conscientes sobre a maternidade, respeitando sua realidade, seus desejos e seu projeto de vida.
* Fernanda Polisseni é médica especialista em Reprodução Humana e diretora da Clínica Nidus – Medicina Reprodutiva
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