Todos nós crescemos com heróis. Homem-Aranha, Batman… Nos encantamos com suas habilidades — força, inteligência, velocidade — mas… não é isso que nos faz amá-los. É o que existe por trás da máscara.
Peter Parker nos toca porque sofre — pelo Tio Ben, pela Mary Jane, pela culpa de não ter conseguido proteger quem amava. Batman não é admirado só pelos gadgets ou pela luta contra o crime, mas por nos conectarmos com o luto que ele vive desde a infância. Ou seja, o que nos aproxima desses heróis não é só sua força, mas principalmente a vulnerabilidade que reconhecemos e com a qual nos identificamos.
Mas aí vem a pergunta: se é a vulnerabilidade que nos conecta às figuras que admiramos, por que ensinamos aos meninos a esconder a própria?
Homem que é homem. Tem que aguentar calado. Tem que dar conta das coisas. Precisa ser forte.
Mas o que verdadeiramente significa fraqueza?
A masculinidade que impomos como sociedade não é natural. Não nasce com a gente. Ela é ensinada, treinada e exigida. Primeiro pela família, depois pelos colegas e conhecidos, e, por fim, por nós mesmos. Eu mesmo escutei muito, quando criança, que eu “era sensível demais” — algo que, talvez, se fosse menina, jamais teria escutado.
A ironia dessa história é que foi justamente a partir dessa sensibilidade que me tornei psiquiatra. Mas certamente isso não acontece com a maioria. A couraça emocional exigida dos meninos não é transmitida para regular os sentimentos — é para anulá-los. E isso produz consequências graves. E, claro, não só para o homem.
Segundo a filósofa e escritora Simone de Beauvoir, a figura masculina sempre se afirmou a partir da razão, da força, da transcendência — que está ligada à superação de limites. Enquanto a feminina, a partir da emoção, do corpo e da imanência — que é o conceito oposto à transcendência, ou seja, aquilo ligado ao cotidiano e às limitações da vida.
E por isso sua icônica frase: “Não se nasce mulher: torna-se.” Porque é através da imposição desses supostos papéis que aquela criança aprende e incorpora o significado de ser mulher.
Na mesma medida, o inverso também acontece: “Não se nasce homem — aprende-se a sê-lo”, mas de uma forma um pouco diferente, pois as características que se espera que ele expresse — ou seja, sua própria identidade — são estabelecidas a partir do afastamento de tudo o que é considerado “mulher”.
Uma visão que um importante antropólogo e pesquisador sobre a masculinidade resume assim: “Ser homem é provar que não se é mulher.” E pense comigo: sabe aquele ditado — “quer parecer bonita sem se esforçar? Ande com pessoas feias”?
A lógica é a mesma: você só pode ser verdadeiramente dominador se houver outra pessoa para ser dominada.
E aí está o problema: quando força é sinônimo de controle, no momento em que uma mulher se recusa a ser o reflexo do homem — ou reivindica o lugar de sua moldura — a autoimagem dele é violada. Porque, se ela tem poder, significa que ele perdeu o próprio.
Muitos homens não se consideram misóginos por não reconhecerem que veem a mulher como um gênero inferior. Mas talvez fiquem mais perto de entender isso se observarem a necessidade que têm de estarem no comando. Pois isso significa que, em algum nível, se consideram superiores.
A verdade é: ninguém lida bem quando a forma como se vê é ameaçada. Mas quando essa identidade depende que o outro seja inferior, é previsível (embora não justificável) que a resposta para essa frustração se traduza em violência. Afinal, cumpre-se bem o papel, né? Se a prerrogativa do homem envolve transcender barreiras, a mulher que o confronta pode ser esmagada — para que não apenas “se ponha em seu lugar”, mas para que o homem recupere o seu.
É por isso que a violência contra a mulher não é um surto, nem um acidente. Ela é o sintoma mais cru de uma masculinidade que nunca soube ser livre. E essa masculinidade que aprisiona a mulher, ironicamente, também sanciona o homem. Não é para menos que, embora as mulheres tentem se matar mais do que os homens, eles superam em duas vezes os índices de autoextermínio. É por isso que reconhecer a própria vulnerabilidade é justamente o oposto da fraqueza — é coragem. E mais do que isso: é um ato de amor.
Agredir para se manter dentro de uma armadura, sim, é sinal de covardia. Porque, em um mundo onde os homens não precisam provar que são “Homens”, as mulheres não precisam ser agredidas para sustentar uma masculinidade que nunca foi delas carregar. E talvez por isso… um verdadeiro super-homem escreva “homem” com “h” minúsculo.
Porque o que o torna grande não é o que ele pode fazer — é o que ele tem coragem de ser.
E aqui eu encerro fazendo o mesmo convite que Emma Watson fez, em uma palestra honrável que deu na ONU: Se não você, quem? Se não agora, quando?
*David Sender é psiquiatra, idealizador do Espaço Calmamente e autor de O Livro Para Quem Adoeceu
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