Dois dias antes da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, estive num voo entre Brasília e São Paulo. Ao meu lado sentou-se Clóvis Carvalho, então secretário-geral do Ministério da Fazenda, braço direito de Fernando Henrique e que poucos meses depois seria o ministro-chefe da Casa Civil do novo Governo.
Puxei conversa com o futuro ministro tentando descobrir um pouco mais sobre os bastidores da implementação do Plano Real. Quando lhe perguntei sobre a participação do presidente Itamar no processo, Clóvis Carvalho me revelou algo surpreendente: o Plano Real não teria sido tão bem-sucedido se não fosse o rigor de Itamar Franco. Disse que, por algumas vezes, a mesma equipe econômica havia apresentado outros planos ao presidente. E Itamar reprovou todos. A equipe teve que trabalhar duro até encontrar soluções para as questões práticas que o então presidente colocava. E esse parece ter sido o real papel de Itamar na história econômica brasileira.
Com sua intuição arduamente trabalhada, teve a ousadia de nomear um habilidoso sociólogo como ministro da Fazenda. Fernando Henrique trouxe junto um grupo de sofisticados economistas da PUC do Rio de Janeiro. Em tese, eles tinham a solução depois de muitos anos de estudos e de seis experiências fracassadas que começaram com o Cruzado e terminaram com o Plano Collor 2.
Na prática, faltava uma ponte entre os modelos teóricos e a vida real. Coube ao engenheiro civil Itamar Franco exigir um projeto detalhado dessa ponte. Depois de muitos estudos, ele finalmente assinou o Plano, como um responsável técnico pela obra.
Parece que só com a morte de Itamar Franco boa parte da mídia fez as pazes com a figura caricata que ela própria desenhou. O homem do topete demonstrava insegurança e seria despreparado para o cargo. Mas, ao cultivar a dúvida, ao fugir do lugar-comum e ao exigir perfeição de sua equipe, o matuto Itamar foi o primeiro a fazer a coisa certa. Com a inflação a mais de 1.000% ao ano, pela primeira vez, um plano de estabilização foi anunciado gradualmente, sem pacotes na calada da noite, sem arbitrariedades, respeitando os contratos e as leis. Há dezessete anos, Itamar inaugurou a obra que mudou a história econômica do Brasil.
Itamar Franco não deixou herdeiro político direto. Mas ainda há tempo. Que a humildade, que a integridade e que a sensibilidade social de Itamar sirvam de inspiração para uma nova geração de políticos brasileiros.
