Pitico, você ainda trabalha com idoso? Essa é uma pergunta recorrente que algumas pessoas me fazem. Eu, um pouco acanhado, respondo que sim. E fico pensando no porquê da pergunta, que me vem à cabeça como sendo algo menor, o de ter o exercício cotidiano profissional ocupado com as pessoas idosas. Como se elas me dissessem assim, você insiste e persiste em algo que não vale a pena, e, principalmente, por se tratar de um trabalho que não dá dinheiro.
Esse diagnóstico é real porque o trabalho social gerontológico não me deu grana. Não multipliquei meu patrimônio. Nem aumentei meus bens materiais. Para o meu consolo e minha loucura: o que ganhei ou ganho não se mede em números nem em boletim de produção assistencial. Está em minhas gavetas de vida, e procuro abri-las para a sociedade nas oportunidades de intervenções públicas que tenho. Escrevendo pequenos artigos para o jornal (como é o caso deste), no dia a dia da minha profissão, atuando em redes sociais, dando aulas, conversando com os ouvintes da Rádio CBN/JF e outras manifestações.
Minha expectativa nesse tempo todo de trabalho com pessoas idosas é a de colocar o assunto na pauta da cidade. Dar luz ao mundo da velhice. Buscar cada dia o envolvimento de toda a comunidade para uma situação humana que diz respeito a todos nós. Tenho feito isso há mais de 30 anos. Resultados obtidos? Mais profissionais e instituições envolvidas com a questão do envelhecimento em Juiz de Fora. O mundo acadêmico entrando de cheio na realização de pesquisas sobre a pauta do envelhecimento humano. Muitas conquistas. Velhos desafios. E a cidade caminha a passos largos para o seu envelhecimento. É preciso reconhecer, sem problema algum, que precisamos avançar na destinação de serviços e programas sociais públicos para as pessoas que envelhecem aqui, tendo o Rio Paraibuna como companhia silenciosa. Temos uma população idosa de mais de 90 mil pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. Somos uma cidade envelhecida!
Comemoramos, no dia 1º de outubro, o Dia Internacional da Pessoa Idosa. Quinze anos de existência do Estatuto do Idoso. Mais uma sacudida na cidade. Os idosos pedem passagem. Foi realizada uma semana de atividades para as pessoas idosas. Eventos nas ruas, na Câmara Municipal, nas faculdades, nas instituições e nos clubes. Palestras, debates, encontros, atividades de lazer e baile. O objetivo foi dizer para a cidade que as pessoas idosas desejam e merecem ter respeito, dignidade, amor, participação comunitária e, acima de tudo, cidadania. Uma nova sociabilidade. De menos preconceito e mais atenção. Nosso mantra!
A título de uma rápida avaliação dos nossos trabalhos com idosos na cidade, afirmo que, como disse acima, precisamos avançar mais, principalmente nas respostas às necessidades das pessoas idosas mais dependentes e sem autonomia de vida assegurada pelas suas precárias condições de saúde. É lamentável que poucos sejam, para não generalizar, o/as candidato/as que se pronunciaram na defesa dos direitos das pessoas idosas em seus planos de governo. Mesmo na disputa para o Parlamento nacional e estadual, e ao Senado também.
Passados mais de 30 anos na luta diária por dias melhores para as pessoas idosas, buscando cada vez mais a entrada de profissionais, competentes colegas na área, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, estou totalmente convencido de que é preciso continuar o trabalho, porque “sonhos não envelhecem”.

