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O dia seguinte

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O processo eleitoral mais conturbado da história recente do Brasil foi concluído no último domingo, mas o clima de divisão e ressentimento parece longe de se dissipar. Afinal, entre versículos bíblicos citando o poder da verdade e a guerra de “fake news”, não faltaram ataques pessoais e até às instituições sociais, como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Desconfiança e medo de um lado contrastam com o entusiasmo e a esperança do outro.

Ainda não houve nota oficial da CNBB, que deve deixar para se manifestar após a reunião de seu Conselho Permanente que ocorre este mês, em Brasília. Entretanto, em entrevista ao Vatican News, sobre as eleições presidenciais, dom Leonardo Steiner, secretário-geral da Conferência, disse que “assim como sociedade brasileira da qual a CNBB faz parte, agora temos um momento necessariamente de comunhão”. Recordando a nota da CNBB antes das eleições, diz que já foi falado de “reconciliação” e várias entidades buscam isso neste momento. “Depois da eleição, busquemos defender a democracia com a reconciliação.”

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Hoje no Brasil existem divisões, mas também tensões, e não só na sociedade, mas nas nossas próprias famílias, por isso chegou o tempo de fazer um movimento “de estender a mão, saber ouvir! O tempo das eleições foi um tempo em que não soube ouvir, havia a capacidade de agressão e não da palavra, não da escuta – diz o bispo – e esse tempo da escuta e da palavra deve vir agora”.

Na mesma direção, o arcebispo de Belo Horizonte (MG), dom Walmor de Azevedo, chama a atenção, em artigo, para um aspecto: “As eleições marcam o início de um novo ciclo, resultado da vontade dos cidadãos”. Para ele, “as eleições não têm força mágica, com o poder imediato de tudo mudar, mas constituem um importante passo, na tarefa de se percorrer um longo caminho. O dia seguinte às eleições não é um ‘conto de fadas’. Para vencer seus muitos desafios, o povo brasileiro necessita buscar respostas alicerçadas em um profundo humanismo, em princípios e valores fundamentais conforme exige o sistema democrático”, disse.

Mas dom Walmor alerta que “a partir das eleições é necessário renovar a compreensão de que uma autêntica democracia requer um Estado regido pelo Direito, sobre a base de uma rica concepção do ser humano, conforme ensina a Doutrina Social da Igreja Católica”, e acrescenta que “é preciso aceitar, com convicção, os valores que inspiram os procedimentos democráticos: o zelo pelos direitos e pela dignidade humana, a busca do bem comum”. Para o arcebispo, “uma democracia sem princípios converte-se, facilmente, em totalitarismo, aberto ou dissimulado”.

Portanto é tarefa não apenas da Igreja mas de toda a sociedade participar ativamente da defesa da democracia por meio da abertura ao diálogo com a mão estendida. Esta também deve ser a postura dos governantes eleitos. Como disse dom Leonardo, “quando um governo assume, precisa ouvir a sociedade, não se impor, senão os movimentos sociais começam a se manifestar e ir às ruas, e isso leva a tensões e divisões maiores ainda”. Ele relembrou que a CNBB “nunca indicou um candidato, mas foram indicados critérios para escolher um candidato. Tais critérios são democracia, diálogo, opção pelos pobres, defesa da vida em todos os sentidos, não apenas a questão do aborto, mas fala-se de toda a abrangência que a palavra vida tem, inclusive a questão do meio ambiente”.

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Agora, o papel da Igreja, dos leigos católicos, é ajudar a criar esse ambiente de diálogo, o que segundo o secretário-geral “é um trabalho difícil, mas que ela não vai se furtar a esta tarefa que o Evangelho nos confia, de criarmos uma fraternidade. Fraternidade significa um rumo, um rumo que é de justiça, de verdade e de amor.”

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