Antes de ser convidado pela presidente Dilma Rousseff para assumir o Ministério da Fazenda, mas por conta de sua passagem por órgãos técnicos no Rio de Janeiro, o ministro Joaquim Levy acumulava a fama de falar além da conta, a despeito de toda a sua reconhecida competência. Seu último ato foi dizer, embora num ambiente reservado, que a presidente da República é genuína, mas nem sempre efetiva. Se chamado, deve dizer que suas palavras foram descontextualizadas, mas poderia ter evitado. Ele fala como alguém de fora, mas desde o dia em que ocupou o primeiro escalão passou a ser Governo, não devendo agir como um “outsider”.
A declaração é fruto do modo como a presidente opera, ouvindo poucas pessoas e interferindo diretamente em muitas áreas, especialmente a economia. O grande desafio do ministro, então, é interromper essa linha de ação, em vez de desqualificar sua chefe direta. O mercado, esse ente que todos temem e poucos conhecem, reage a qualquer coisa e ganha pretextos para se agitar e jogar a cotação do dólar para as alturas, além de provocar a fuga de ativos. É o que menos interessa agora.
Num cenário de fragilidade oficial, qualquer dado ganha formato hiperbólico, pois estão em jogo interesses de toda a sorte, alguns deles longe do viés republicano, mas que se aproveitam de ocasiões como essa para tirar suas vantagens. Se “sobreviver”, e parece que vai, o ministro deve ser mais prudente, embora reconheça-lhe a intenção de acertar, mesmo com muitos jogando contra, inclusive de dentro da estrutura de poder.
