O ciclo de violência que afeta as cidades, sejam elas de qualquer porte, é fermento para as alterações no estatuto do desarmamento aprovadas pela Comissão Especial da Câmara, atendendo propostas do deputado Laldívio Carvalho, radialista de profissão, forjado na lida diária com o noticiário policial. No seu entendimento, as mudanças ocorrem em defesa do cidadão de bem, hoje acuado pelos criminosos e em desvantagem. O relator acrescenta que não está reforçando a violência, uma vez que, no seu entendimento, os bandidos, há muito tempo, têm acesso a equipamentos letais, enquanto as restrições afetam apenas os cidadãos honestos que querem o direito de se defenderem e de defender suas famílias.
O discurso de Laldívio tem adeptos, mas vai na contramão dos fatos, pois o que se discute, hoje, é o desarmamento, uma vez que homens de bem não são, necessariamente, especialistas no uso de armas, sendo, sim, potenciais vítimas. Os que consideram estar seguros por terem uma tendem a reagir a qualquer tipo de assédio, partindo para um confronto desigual. O bandido, quando vai para o crime, não mede consequências e nem teme pela própria sorte. Nesse vale-tudo, não hesita em tomar decisões. O cidadão comum age diferente.
A sociedade já viveu a experiência de discutir o uso das armas, quando do referendo de 2005. Na ocasião, sob o olhar do Tribunal Superior Eleitoral, a proibição do comércio de armas de fogo e munição no Brasil foi rejeitada por quase dois terços dos eleitores. O não venceu em todos os estados, a despeito de as pesquisas de véspera apontarem para o contrário. Com o resultado, foram mantidas as disposições do Estatuto do Desarmamento promulgado em dezembro de 2003. De lá para cá, porém, a situação só se agravou, o que coloca em dúvida a proposta de mais flexibilização.
Como a discussão ainda não chegou ao plenário, há espaço para novas avaliações, sobretudo para uma matéria que tem sérias consequências. Até em países como os EUA, onde a compra de armas é comum, há, por iniciativa do presidente Barack Obama, preocupações em reduzir o acesso. No Brasil, a discussão caminha pela contramão.
