Ao votar pela condenação de políticos no julgamento do mensalão, a ministra Carmem Lúcia Antunes, que também preside o Tribunal Superior Eleitoral, fez duas observações que soam mais como advertência. A primeira, ao conclamar os jovens a não se decepcionarem com a política a despeito do modo como ela tem sido utilizada pelos partidos e seus filiados. A segunda, e mais grave, ao admitir dificuldades na legislação brasileira para punição dos culpados de atos ilícitos eleitorais.
Em ambas, porém, há espaço para discussão. De fato, a ministra está correta ao chamar a atenção para as mazelas engendradas nos gabinetes que acabam refletindo no pensar das ruas. Os jovens, cada vez mais integrados ao fluxo de informações, estão decepcionados com os fatos e apontam esse descontentamento nas redes sociais. O problema é que há uma perigosa mistura que joga na mesma vala quem pratica atos ilícitos e quem faz da política um instrumento de organização da sociedade.
Por conta disso, o julgamento do mensalão é emblemático, pois será possível apontar para os jovens, especialmente, que é possível fazer política com boas intenções. Para tanto, porém, não basta a lei, mas também o modo como os partidos têm elaborado suas escolhas. E é aí que cabe a segunda advertência da ministra. A legislação precisa ser revista por meio de uma reforma que mude a essência do processo de escolhas, a partir dos próprios diretórios, a quem deveria caber a missão primária de filtrar seus candidatos e adequá-los aos princípios da Ficha Limpa.
Além disso, há uma série de incongruências que precisam ser resolvidas, como financiamento de campanha e voto distrital, entre outras. Para tanto, porém, o Legislativo precisa recuperar sua autonomia e sair da aba do Executivo – em todas as instâncias -, retomando a harmonia dos poderes e a sua independência.
