Entre muitas frases, o presidente Tancredo Neves dizia, do alto de sua sabedoria, que na hora de votar há uma vontade latente de trair. Na última segunda-feira, as declarações do deputado Duarte Nogueira (PSDB-SP), depois de um almoço com o peemedebista Eduardo Cunha, soaram como uma confirmação da máxima. Os tucanos estão fechados com a candidatura do socialista Júlio Delgado, mas, na tentativa de derrotar o petista Arlindo Chinaglia na disputa da presidência da Câmara Federal, flertam com o parlamentar do PMDB fluminense, por ver nele a chance real de virar o jogo. Seria a adoção do voto útil em seu sentido mais claro. A decisão oficial deverá ser tirada na véspera da eleição, mas já não se ignora a dissidência.
Entre meios e fins, a instância política olha nos resultados, o que faz do jogo eleitoral um processo de incertezas, no qual o interesse, seja ele estratégico ou do grupo, torna-se vital. Os tucanos encontram em Eduardo Cunha a possibilidade mais visível de chegarem à presidência do Legislativo, mesmo sem garantias do que virá com um presidente em confronto direto com o Governo federal, mesmo sendo ele da base deste mesmo mandato. Cunha tem um estilo próprio de atuar, o que faz dele um alvo fácil, mas também um parceiro ideal, sobretudo para o chamado baixo clero ou pela oposição pragmática.
O que está sendo colocado à margem são as consequências deste jogo. O Governo, mesmo negando oficialmente, age para eleger Chinaglia. As oposições, mesmo divididas entre Júlio Delgado e Eduardo Cunha, fazem as contas. Em nenhum dos casos está sendo levado em conta o projeto de cada um dos postulantes, embora sejam programas distintos.
Num cenário como este, os riscos são reais. Em 2005, quando o deputado Severino Cavalcanti, um notório representante do baixo clero, desafiou o poder e enfrentou Luiz Eduardo Greenhalgh, favorito em todas as apostas, o discurso foi o mesmo: contestação ao status quo. O resultado foi trágico: Severino fez um mandato corporativista e saiu pela porta do fundo da história.
