Tem razão a socióloga Helena Wendell Abramo, ouvida pela Tribuna sobre o papel político da juventude, ao advertir que não faz sentido comparar gerações para medir se uma foi mais politizada do que a outra, sobretudo num cenário distinto. De fato, os estudantes que mobilizaram o país nos memoráveis 1968 e 1969 viviam sob um contexto diferente, pressionados por uma ditadura militar. A geração dos anos 1990 passou por outras circunstâncias, ao ver um presidente pedir ajuda e o tiro sair pela culatra, o que a levou às ruas de caras pintadas. Fernando Collor caiu.
Os tempos, hoje, são outros, e os jovens têm novas ferramentas de aferição das demandas do país. Pelas redes sociais, eles se mobilizam e discutem a política, talvez menos na intensidade que se esperava, mas não são indiferentes. Na última campanha eleitoral, várias redes de discussões foram formadas, e, em muitas delas, o perfil era de geração Z, demonstrando a ocupação de um espaço que se supunha vazio. A Câmara Municipal, com a experiência da Câmara Mirim, teve inscrições acima do esperado e levou o projeto adiante.
É fato que o modo de operar a política mudou, mas ele não afeta apenas os jovens. Os comícios saíram de moda, inclusive por custos, e as mobilizações de rua, agora, são feitas pela internet. O que falta, porém, é despertar mais o segmento para a importância da participação na vida do país. Paradoxalmente, são os próprios políticos, com mazelas em série, que estão desconstruindo a política, tornando-a um elemento de barganhas e visto como espaço de vantagens pessoais.
Os jovens precisam, sim, ser incentivados a entender que a política é elemento de mudanças e vital para o processo democrático. Utilizando bem as ferramentas da modernidade e mobilizados, podem mudar a visão que hoje têm do jogo político, amplificando ações, como a Ficha Limpa, para tirar de cena aqueles que ingressam no processo político de olho apenas nos seus interesses.
