Quando se fala em ética é possível fazer uma longa e interminável discussão, pois em vários momentos, até nos seus primeiros conceitos, ela se confunde com moral, embora não sejam a mesma coisa. Basicamente, ética é princípio, enquanto moral são aspectos de condutas específicas; a primeira é permanente e universal, enquanto a outra é temporal e cultural. Mas tudo isso não se encaixa nas ações do Congresso, especialmente do Senado Federal, onde há sentido próprio dessas duas palavras. Como houve uma provocação do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal em razão de o senador Roberto Requião (PMDB-PR) ter arrancado o gravador das mãos de um repórter, o presidente da instituição, José Sarney, resolveu ressuscitar o Conselho de Ética.
E tinha que fazê-lo, pois é o foro adequado para analisar o comportamento do parlamentar paranaense, que se incomodou ao ter sido questionado sobre sua aposentadoria como governador, embora o instituto já tivesse sido revogado pela Justiça. O problema, no entanto, está na formação do Conselho. Dos 15 senadores que dele farão parte, oito têm contas a prestar ao Supremo Tribunal Federal, instância especial para analisar demandas do Congresso. Mais da metade, pois, tem empecilhos de toda sorte, deixando dúvidas sobre como esses políticos irão agir no julgamento do colega senador.
O espanto se soma ao risco de o corporativismo falar mais alto. Como esses oito senadores vão cobrar um comportamento ético do colega se eles próprios precisam se explicar diante da Lei? A escolha soa como um escárnio ou até mesmo um desafio à opinião pública. Em casos normais, é possível declarar o impedimento dos julgadores, o que não ocorre no Senado. O mínimo que se espera, então, é que esses parlamentares peçam para sair. Mas é pedir demais.
