A derrubada do aumento no IOF tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal – o que causou profunda irritação no presidente Lula – foi o recado mais claro da indisposição dos partidos, inclusive da base governista, com ações do mandato, sob o argumento de o PT estar patrocinando, de novo, tributações sucessivas à população.
Trata-se de um discurso para a plateia, pois o que está em jogo é a sucessão de 2026. Os partidos que têm cadeira em ministérios deram mostras de que não estarão no palanque de Lula, optando por outro projeto ainda a ser definido, provavelmente o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Tal aviso não deve implicar necessariamente o desembarque do Governo. Tanto o presidente quanto os partidos sabem que há uma mútua dependência, embora alguns participantes do núcleo duro do poder já sinalizem que a hora é agora, não havendo margem para esperar por uma nova crise.
Tal argumento faz sentido, mas passa por ressalvas. Partir para o enfrentamento agora é ampliar ainda mais as hostilidades da centro-direita (leia-se Centrão), que pode inviabilizar projetos caros para o presidente, como os do espectro social. Com uma comunicação precária, ele não teria meios imediatos de dizer especialmente ao seu eleitor que a culpa não é do Planalto.
A judicialização da questão é outro tema em pauta. O argumento de o Congresso não poder derrubar um decreto, salvo se o Governo apresentar outro, tem respaldo teórico, mas boa parte das decisões do Supremo tem viés político, o que não garante, pois, que o presidente vá ganhar a causa.
E, ganhando, como ficará a relação com o Congresso? Essa também é a pergunta a ser feita, sobretudo quando não há garantias de fidelidade até mesmo de aliados históricos. O PDT, embora não tenha qualquer simpatia pelas ações do Centrão, ainda não esqueceu da demissão de seu dirigente Carlos Lupi do Ministério da Previdência Social em decorrência do escândalo do INSS. Vários pedetistas entendem que o Planalto espetou a crise na conta do partido, quando o problema é coletivo e de longa data.
O MDB, que nunca morreu de amores pelo PT, também faz parte da base, mas as contas indicam que somente metade da bancada garante que estará no palanque do presidente Lula nas eleições de 2026. A outra tem uma atitude pendular.
Ao fim e ao cabo, a crise desta semana é apenas o prenúncio de tantas outras que podem vir pela frente ante a proximidade com as eleições do ano que vem. O presidente, que quer a reeleição, pode partir tanto para o confronto, e dizer que vai governar exclusivamente com a base que estará em seu palanque, quanto pode voltar a conversar para, pelo menos, minimizar os danos ao seu projeto de Governo.
Paradoxalmente, os números da economia indicam queda na inflação, estabilidade no emprego e aumento do PIB, mas, mesmo com notícias tão boas, o parlamento está insatisfeito. Sem depender – como em outros tempos – do Executivo, o Congresso tem vida própria e age como se o país estivesse sob a égide do semipresidencialismo.

