O senador José Sarney, presidente do Congresso, flagrado utilizando um helicóptero do governo do Maranhão – dirigido por sua filha Roseana -, disse ter direito ao benefício em função do cargo que ocupa, mas não é esse o entendimento, inclusive da Ordem dos Advogados do Brasil, pois se tratava de uma atividade particular sem qualquer ligação com as suas prerrogativas. O episódio é autoexplicativo, mas não cessa a polêmica. Ele faz parte apenas dos abusos cometidos por autoridades que entendem ser a coisa pública algo disponível a qualquer tempo e lugar. O ex-presidente da República deve, no mínimo, ressarcir os cofres públicos, já que o aparelho é destinado ao traslado de pacientes, como era o caso de um operário que ficou à espera da liberação da aeronave.
A confusão entre o público e o privado carece de regras mais rígidas, pois, e não é de hoje, tornou-se uma rotina. No semestre passado, o governador do Rio, Sérgio Cabral, viu a fatalidade rondar sua família quando sua nora morreu num acidente de helicóptero no Sul da Bahia. Seu filho só escapou porque iria em outro voo. O que seria um fato da instância policial migrou para a política, pois o aparelho era de um empreiteiro, com negócios com o Governo fluminense, que cedeu o transporte sem qualquer custo. Embora o caso tenha saído de cena, foi mais uma mostra desses desvios éticos que perpassam a vida pública.
A dúvida é saber se os escândalos são recentes ou se somente agora ganham destaque na mídia e na polícia por concessões da própria democracia. O patrimonialismo é histórico, tornando-se uma ação sem culpados. O que se percebe, hoje, porém, é a capacidade de tráfego da informação, que desnuda episódios até então feitos à revelia da opinião pública. A internet, nesse aspecto, é uma ferramenta importante para desvendar tais segredos, mas é preciso, além disso, que a Justiça se manifeste, porque de nada adianta a divulgação se os agentes de tais ilícitos não pagarem – mesmo que financeiramente – pelos seus atos.
