O país alcançou, com antecedência de dois anos, a meta de redução do número de homicídios, mas não há margem para comemoração. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública– divulgado na manhã de quinta-feira -, foram registradas 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, uma redução de 8,2% em relação a 2024. No entanto, o número de feminicídios aumentou 4%: 1.571 mulheres foram mortas. Segundo o anuário, 60,9% dos crimes tiveram como autor o parceiro íntimo; 18,9%, o ex-companheiro; e, em 12,1% dos casos, a autoria foi de um familiar.
Tanto nos números gerais quanto nos feminicídios, a desigualdade racial fica explícita: oito em cada dez mortos são negros. Quando se trata de feminicídios, 65,1% das vítimas são mulheres negras – perfil que se repete na avaliação de vulnerabilidade social.
Os números indicam o quanto o país ainda precisa avançar para reverter tais estatísticas. A redução no número de homicídios é positiva, mas continua preocupante, pois o total de mortos supera o de grande parte dos conflitos armados pelo mundo e ultrapassa a população inteira de uma expressiva parcela dos municípios brasileiros.
São diversas as motivações para os crimes contra a vida. De acordo com especialistas, boa parte é resultado do avanço das facções pelo país, na disputa por territórios. Os grupos organizados, antes restritos especialmente a Rio de Janeiro e São Paulo, espalharam-se pelos demais estados, motivados, sobretudo, pelo tráfico de drogas. Os municípios com maior incidência estão próximos a regiões de fronteira ou a rotas utilizadas pelo crime organizado.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, no entanto, é bem mais amplo e mostra outros dados emblemáticos dos novos tempos: o estelionato consolida-se como o principal crime patrimonial, especialmente no meio digital. Foram registrados 258 golpes por hora – o equivalente a impressionantes 4,3 casos por minuto. Contudo apenas 4.819 envolvidos foram presos nessa modalidade.
De acordo com o relatório, foram feitos 2.561.055 boletins de ocorrência. O número de registros subiu 2,7% em relação a 2024, mas ainda está abaixo do volume estimado de golpes, o que indica subnotificação e que nem todas as vítimas procuram uma delegacia.
Enquanto os dados da segurança apontam para a urgência de ações estatais, o Senado Federal ainda não votou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, já aprovada pela Câmara dos Deputados. A matéria enfrenta resistência para entrar na pauta de votação, mesmo diante do cenário alarmante apresentado pelo anuário.
A PEC é ampla e traz ações que vão além do viés repressivo. Sem medidas preventivas e sem a integração entre União, estados e municípios, não será possível transformar essa realidade. Com dois terços dos senadores focados nas articulações eleitorais para a renovação de mandatos, cresce o risco de a matéria ser adiada para o fim do ano ou, pior, para a próxima legislatura.

