No seu discurso diante da presidente Dilma Rousseff, de governadores e demais autoridades, após uma maratona de voo e passagem pelas ruas do Rio de Janeiro, o Papa Francisco, como numa homilia – falou mais de religião do que de política -, endossou sua fé nos jovens, mas alertou que a juventude está em crise. Chamou a atenção para o risco de se criar uma geração perdida ante a falta de oportunidades, sobretudo no mercado de trabalho. Não falou para o Brasil exclusivamente. Falou à cidade e ao mundo, já que as incertezas são múltiplas e extrapolam fronteiras. Os jovens, nos diferentes países, e ele veio para uma jornada mundial, estão em busca de perspectivas, mas só encontram incompreensões e um cenário preocupante de corrupção nas instâncias públicas, educação precária e insegurança.
O Papa cobrou os políticos ao dizer que a nova geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaços, tutelar as condições materiais e imateriais para seu pleno desenvolvimento, oferecer a ele fundamentos sólidos, sobre os quais construir a vida, garantir-lhe segurança e educação para aquilo que pode ser. Mais direto, impossível, pois apontou para questões vistas nas manifestações de junho, quando milhões de brasileiros protestaram.
Francisco, um papa latino e conhecedor das demandas das regiões mais pobres, não falou novidades, mas inovou ao sair do discurso pronto dos rituais para avalizar temas que estão no cotidiano das ruas ou nas redes sociais, mas ainda incompreendidos pelas classes dirigentes, ora a bater cabeça em busca de respostas. No caso brasileiro, há dados claros em torno da violência que flagela uma geração inteira; da falta de estrutura nas instâncias educacionais e de saúde e, sobretudo, de um cenário político em que a impunidade continua sendo marca resistente. O Papa, portanto, não poderia ser mais oportuno.
