Há cerca de dez dias, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, reuniu-se com o ex-governador de São Paulo José Serra para uma conversa – como disseram -, a fim de falarem sobre o Brasil. Ao final, numa declaração emblemática, o líder tucano disse que a candidatura do presidente do PSB seria boa para o Brasil. Nada de mais se não fossem os detalhes. O primeiro é candidato à Presidência da República pelo PSB, o outro é um dos cardeais do PSDB, que, em princípio, tem candidatura própria.
O jogo político se desenvolve por metáforas. Serra, que deveria apoiar o seu correligionário Aécio Neves, endurece as negociações e flerta com o adversário. Não que vá apoiá-lo, mas dá mostras de que não venderá facilmente sua posição dentro do PSDB. Aécio, que voltou a São Paulo na última sexta-feira, tem duas frentes de ação antes de partir para a luta final: desestabilizar as ações de Campos e convencer Serra de que sua resistência é semelhante a um abraço de afogado, no qual todos perdem.
A leitura a ser tirada destes episódios, porém, é mais ampla. Mostra que a política no Brasil continua sendo definida por gestos pessoais, nos quais os partidos são meros meios. Serra bloqueia Aécio não pelo viés ideológico, mas por entender que ainda tem chance de se eleger presidente. E tem apoio não só de parte do partido, mas também de setores importantes, inclusive da mídia paulista, refratários às ações do parlamentar mineiro.
Pelo lado do Governo, não há diferença. A presidente Dilma chegou ao posto máximo por uma iniciativa pessoal de seu antecessor. Quando a escolheu, o ex-presidente Lula não consultou o PT. Repetiu o gesto na eleição em São Paulo, quando indicou e elegeu o ex-ministro Fernando Haddad para a principal prefeitura do país.
Esse personalismo na política contraria as expectativas dos que esperam um jogo pautado pelo interesse coletivo e até mesmo ideológico. O cenário de intervenções pessoais se reflete não só na campanha, mas no dia a dia da política, quando o Legislativo, em todas as instâncias, atua a reboque dos governos, que têm o poder de agenda e a caneta para tomar decisões.
