Em situação de risco como os meninos infratores apontados pela Tribuna no final de semana e registrado também nesse mesmo espaço no domingo, as crianças que atuam como pedintes em ruas da cidade vivem cenário idêntico e até causas semelhantes, embora, em princípio, não tenham se enveredado para o ilícito. Ao contrário, estão se apresentando como vítimas de um sistema que ainda não conseguiu erradicar a pobreza. A boa notícia é que a Secretaria de Assistência Social anunciou que irá tomar providências para tirar esses meninos das ruas e colocar fim à permanência deles nas esquinas e nos sinais. Trata-se de uma das faces do Brasil real que já não indigna. As pessoas cruzam com esses personagens e seguem em frente, imputando apenas ao Estado a responsabilidade de cuidar deles.
De fato, o Estado é o principal gerenciador, mas não é possível ficar alheio a esse cenário que ocupa as ruas das cidades, independentemente de seu porte. Por mais que se façam ações – a Municipalidade garante que mais de 2.500 crianças e adolescentes estão recebendo assistência de programas específicos -, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Na ponta do problema, essas crianças são fruto de famílias desassistidas ou desestruturadas, que acabam sendo formadoras da indigência. Não sabem como lidar e nem cobrar atitudes, ficando essas pequenas vítimas à sua própria sorte quando não são acolhidas pelos programas sociais. As de menos sorte, são acolhidas pelo tráfico, que faz delas seus soldados.
Na Avenida Rio Branco com a Rua Silva Jardim, o garoto de 11 anos citado na matéria tornou-se um personagem, pois é possível vê-lo, sobretudo à noite, transitando entre os carros. Não faz performances, como os que atuam como malabaristas. Simplesmente pede e comove pelo seu porte e por sua atitude. O risco de um atropelamento ou agressão é permanente. Mas existem outros, inclusive adultos, que fazem das vias urbanas o seu ganha-pão sem qualquer garantia posterior de assistência. O louvável trabalho da SAS é uma jornada permanente, pois a pobreza tornou-se um flagelo até do primeiro mundo. Quem, algum dia, poderia imaginar que os Estados Unidos, a nação mais poderosa, pudessem admitir que tem mais de 40 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza?
Se lá, com toda a estrutura e recursos, há essa realidade, que dizer dos demais países? Por isso, a jornada nacional, que se reflete no município, é intensa e perene, pois trata-se de uma luta sem data para terminar e sem a certeza da vitória definitiva. Vale, porém, continuar lutando para que esse cenário seja cada vez mais raro nas ruas de Juiz de Fora.
