Criticar, sim. Estranhar, não. Ao abordar o patrocínio de uma ditadura a uma escola de samba no carnaval do Rio, referindo-se aos possíveis R$ 10 milhões repassados pelo Governo da Guiné Equatorial à Escola de Samba Beija-Flor, que por sinal foi a vencedora dos desfiles deste ano, o diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, disse não se surpreender com esse tipo de atitude, que ora causa protesto e estranhamento até no exterior. Segundo ele, “o carioca convive com a sacanagem das escolas há muito tempo”, referindo-se ao período em que, com raras exceções, elas tinham o patrocínio da contravenção. Como constatação, o cantor Neguinho da Beija-Flor não se intimidou ao dizer que, graças aos contraventores, o carnaval tinha esse brilho.
O carnaval do Rio de Janeiro vive permeado de polêmicas não só de cunho ético-moral, mas também religioso. Em 1989, quando a mesma Beija-Flor, ainda sob a égide de Joãozinho Trinta, misturou o sagrado com o profano, apresentando um Cristo Redentor vestido de mendigo, o país parou para discutir o tema. Desta vez, porém, há outros componentes. Em princípio, o dinheiro vem de um país com um dos piores índices sociais, onde o povo, longe da passarela, vive sob forte crise social e sob o jugo de uma longeva ditadura.
O estranhamento, como apontou Claudio Abramo, também não se justifica. Durante anos, figuras emblemáticas do jogo de bicho foram e continuam sendo exaltadas, inclusive pela mídia, pelo seu “patrocínio” às entidades. Nunca se discutiu a origem do dinheiro, considerando-se o patrocínio uma boa ação da contravenção. Neguinho da Beija-Flor é testemunha. Desta vez, porém, o Ministério Público, silente em outros anos, quer saber detalhes da história.
Há muito tempo, o desfile das escolas de samba fluminenses deixou de ser uma manifestação espontânea dos foliões para se tornar um produto de marketing e de lucro. A inegável beleza é forjada em verbas milionárias, a despeito da crise econômica, que até chegou aos camarotes, mas, em momento algum, ameaçou o brilho da passarela.
