Entre as extravagâncias gastronômicas do governador do Ceará, Cid Gomes, e o entrevero envolvendo os ministros do Supremo, Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, o país se viu envolvido numa trama internacional. A retenção do brasileiro David Miranda no Aeroporto de Heathrow, em Londres, quando fazia uma conexão para o Brasil, foi um ato além da conta, sob o argumento de combate ao terrorismo. Namorado do jornalista americano Glenn Greenwald, ele voltava da Alemanha quando foi detido pela polícia inglesa, a fim de dar esclarecimentos sobre as atividades de seu companheiro, responsável pelas matérias que denunciaram as ações da Agência de Segurança Nacional americana (NSA – sigla em inglês). O Governo brasileiro protestou, mas não o suficiente para mostrar que até mesmo para questões de segurança nacional há limites.
Seria ingênuo considerar que americanos e ingleses não estivessem de olho no brasileiro por conta de suas relações e que, na primeira oportunidade, iriam assediá-lo para obter novos dados, mas há uma distância abissal por conta da forma adotada, mesmo por um período restrito de nove horas. A vigilância eletrônica tornou-se uma obsessão dos governos, deixando o cidadão refém do grande irmão que tudo vê e tudo quer controlar. David contou aos policiais que não tinha envolvimento direto com as atividades de Greenwald, mas, mesmo assim, teve seus equipamentos violados e confiscados.
No Brasil, as metrópoles discutem a implantação de câmeras de segurança nas vias públicas, também em nome do combate à violência, mas são situações distintas, pois são áreas públicas que serão monitoradas. A partir do instante em que cidadãos em trânsito passam a ser presos – mesmo temporariamente -, é preciso ampliar a discussão, sob o risco de inocentes pagarem por culpados, gerando, aí sim, insegurança coletiva.
