Ícone do site Tribuna de Minas

ANDAR DE CIMA

PUBLICIDADE

Corre no território livre da internet uma frase atribuída ao jornalista Juan Arias, correspondente no Brasil do jornal espanhol El País. Diz ele: Que país é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção?. Não é preciso entrar no mérito das manifestações citadas para avaliar o silêncio que marca parte da sociedade quando se trata de corrupção. Não é recente o uso do dinheiro público em proveito pessoal, mas também não ocorreu uma necessária mudança cultural capaz de inverter o jogo. A polícia cumpre o seu papel, uma parte se indigna, mas o cenário se mantém o mesmo.

PUBLICIDADE

Arias se equivoca, porém, quando diz que não há mobilização. A Lei da Ficha Limpa, que mudou parâmetros de ocupação de cargos públicos, foi resultado das ruas, com a adesão de quase dois milhões de eleitores pelo país afora que forçaram o Congresso a aprovar e o Governo a sancionar um texto tão relevante. O eleitor, mesmo ante críticas ao modo como alguns agem, tem feito o seu papel. A impunidade é resultante não da legislação em si, pois o país é pródigo em leis, mas na sua execução e nas brechas que permitem o trânsito infinito de ações pelos corredores da Justiça. O noticiário aponta o problema, e a polícia tem feito as prisões, mas, antes mesmo do dia seguinte, muitos dos autores estão nas ruas.

É certo que há exageros, mas a possibilidade de recursos, atrasando sentenças de mérito, provoca um passivo que reflete na opinião pública e consolida o discurso recorrente de que as cadeias não foram feitas para o andar de cima. E não há como contestar ante tantas evidências. O mensalão, uma das faces mais emblemáticas do patrimonialismo, ainda tramita no Supremo. Os anões do orçamento continuam ricos, e acordos de toda sorte são firmados à revelia do bom-senso. Não basta, pois, só mobilizar. É preciso incrustar no inconsciente coletivo a necessidade de vigília e punição aos responsáveis. Caso contrário, prevalecerá a máxima de Eduardo Alves Costa em No caminho com Maiakóvski: Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada. Por conta da omissão e da fragilidade da legislação, usam e abusam do que é do povo.

PUBLICIDADE
Sair da versão mobile