Nas manifestações pelo país afora, observa-se, para gosto de muitos, um repúdio aos partidos políticos, impedidos de expor suas bandeiras, como se a volta às ruas fosse uma ação apartidária. Pode até ser, uma vez que os jovens têm demandas próprias, embora também explicitem sentimentos de boa parte da população, como críticas aos custos com transporte, alimentação, educação, saúde e segurança. Nesse cenário de muitas causas, mas sem lideranças formais, há o risco de demonização da política, que deve ser avaliado. O momento pode ser inoportuno para os partidos, uma vez que paira o temor da demagogia, mas é necessário levar em conta que partidos políticos também são representação legítima da população e por ela falam nas casas legislativas.
É fato, porém, que as representações partidárias precisam corrigir seus rumos. Se são essenciais para o processo democrático, também carecem de fazer o dever de casa e exercer corretamente a representação. Hoje o jogo se desempenha em compartimentos estanques e por interesses distantes dos que levam milhares de jovens aos protestos. As legendas tornaram-se franquias de alguns segmentos, que olham apenas para o próprio umbigo, e é aí que está o erro.
A lição a ser tirada pelas legendas é o seu afastamento dos protestos. Os jovens dão um recado direto de que é preciso mudar a práxis política, sob o risco de insistirem na democracia direta sem intermediação dos políticos. Estes, por sua vez, precisam voltar ao ponto de origem e entender que, enquanto agirem apartados do interesse público e apenas sob o viés demagógico, estarão perdendo pontos.
Ainda há tempo, mas não muito tempo. O Congresso, principal casa representativa, se viu invadido por manifestantes, num claro recado de insatisfação. Enquanto isso, porém, os parlamentares insistem em agendas próprias, distantes do interesse coletivo, forjadas apenas nos seus preconceitos, como o projeto cura gay, aprovado sorrateiramente na Comissão de Direitos Humanos.
