Polarização em xeque. Não é de hoje que a opinião pública tem sido mais sensata do que as estruturas de poder em todos os níveis. Os números das recentes pesquisas – começando pela Genial/ Quaest, divulgada nessa quarta-feira – são emblemáticos. A maioria não tem ilusões de que o presidente americano Donald Trump mudará de opinião até o dia 1º de agosto, prazo por ele estabelecido para a taxação dos produtos brasileiros em até 50%. O ceticismo surge devido ao curto prazo e à percepção de que o dirigente dos EUA tem outras intenções para além do que está sendo dito: o julgamento do ex-presidente Bolsonaro.
Trump colheu um bom argumento, reforçado pela polarização no Brasil, mas a suspeita que se torna mais evidente a cada dia é que ele pensa apenas no viés econômico, buscando aumentar a arrecadação dos Estados Unidos, gerar empregos internos e, sobretudo, sufocar a concorrência. A política é apenas um fator de tergiversação, em vez de um dado real.
Outro dado da pesquisa: todos seremos afetados. É um fato que, mesmo o Brasil tendo aberto outras frentes de exportação, não sendo os Estados Unidos o principal parceiro, e já apresentando um déficit em nosso desfavor, a economia americana influencia o mundo globalizado. Não estaremos, pois, fora do problema.
Mas o recorte mais importante da pesquisa é a opinião que prevalece entre a população, quando ela cobra que esquerda e direita resolvam o problema em trabalho coordenado, abrindo mão de suas posições e buscando um caminho comum para superar o impasse.
A lição a ser tirada é o cansaço coletivo causado pela polarização. A maioria da população já não consegue acompanhar o discurso de nós contra eles, presente desde 2016, quando, coincidentemente, Trump conquistou seu primeiro mandato no Hemisfério Norte.
Essa constatação se acentua também nos números. De acordo com o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, a população é favorável à taxação dos mais ricos, os chamados três Bs (bancos, bets e bilionários), mas rejeita o conflito social que emerge dessa taxação. Afinal, apenas 1% da população seria afetada, enquanto, se prevalecer a tese de ricos contra pobres, a consequência será mais acentuada, pois, de novo, surgirá um novo flanco de enfrentamento.
O recado foi dado, bastando que os atores decodifiquem o pensamento popular, mesmo com o país se encaminhando para um ano eleitoral. A disputa pode ocorrer de outros modos, afastando-se do extremismo de ambos os lados, que, em vez de solução, só gera mais dificuldades.

