Uma semana antes do carnaval, moradores do Bairro Poço Rico, em vez do tradicional desfile para celebrar a chegada de Momo, como ocorre todos os anos, se reuniram com outro objetivo. Dessa vez, no lugar das baterias, imperou o silêncio. Cerca de 400 pessoas percorreram as ruas do bairro em protesto pela morte do jovem Lincoln Brandi Neto (28), espancado uma semana antes com golpes de coronhadas no rosto, após pedir que um homem – por sinal, seu vizinho desde a infância – abaixasse o volume do som do carro. Lincoln foi descrito pelos amigos como uma pessoa que não fazia mal a ninguém.
Não é simples encontrar explicações para o que está ocorrendo com a juventude, mas os fatos são auto-explicativos: por pouco ou quase nada, são cometidas atrocidades. Reclamar de um som alto, em momento algum, poderia dar margem a um crime de morte. Os motivos fúteis se incorporam à rotina das ruas, e o preço da vida caiu de cotação. E, na maioria dos casos, os autores e as vítimas se situam na faixa de 15 a 29 anos, a mesma apontada pela maioria das pesquisas como a de maior incidência de crimes contra a vida.
Também na semana passada, uma adolescente de 17 anos, suspeita de esfaquear um garoto de 16 anos, na Vila Esperança II, Zona Norte, foi ouvida pela Polícia Civil. Admitiu ter desferido a facada no peito da vítima. Alegou ameaças em razão de desentendimentos anteriores. Nem ela, nem a vítima, ainda internada no hospital, sequer chegaram à maioridade, mas resolvem suas diferenças com o uso de arma.
Os tempos, certamente, são outros, mas é necessário investir na busca de soluções, para impedir os riscos a uma geração que deveria, sim, estar na escola, investindo no futuro ou se inserindo no mercado de trabalho. Caso contrário, não bastando os demais delitos, os cidadãos também terão que tomar cuidado com questões simples, como uma reclamação, mas que pode – como ocorreu com o jovem Lincoln – culminar em homicídio.
