No recente ciclo de trocas de partidos, quando pelo menos 10% dos parlamentares em Brasília migraram para outras legendas, ficou claro que os legisladores ignoram as próprias leis que criaram. A norma diz que perderá o mandato o político que sair de um partido e se mudar para outro, salvo quando há discordância programática ou se trata de uma nova legenda. Mas não foi isso que ocorreu. É certo que o PROS e o Solidariedade, por serem siglas recentemente homologadas pela Justiça Eleitoral, foram os mais beneficiados, mas a migração não se esgotou neles. A surpresa, porém, é que são raros os casos de partidos pedirem o mandato de dissidentes, preferindo perder um quadro a brigar para ter o mandato de volta. Trata-se de um jogo de conveniências, no qual se perde aqui, mas se ganha lá na frente.
Por conta desse processo, a legislação brasileira continua com problemas, uma vez que a fidelidade partidária tornou-se mera peça de ficção. Por algum tempo, além de não poderem fazer tal dança de cadeiras, os políticos eram obrigados a seguir à risca a cartilha do partido. O próprio Partido dos Trabalhadores pediu a cabeça de deputados que eram simpáticos à candidatura do então governador Tancredo Neves, quando este se habilitou a ir ao colégio eleitoral. Foi, ganhou, mas não tomou posse por conta de sua morte. Os dissidentes que foram ao colégio perderam o mandato, como a atriz Bete Mendes. Há outros casos que hoje não se repetem. O único a ter tal punição foi o deputado federal Robson Carvalho, do Distrito Federal, quando saiu do DEM e migrou para o PP. O Democratas arguiu a infidelidade partidária, e o parlamentar foi cassado.
O ciclo migratório, já absorvido pelas legendas, muda a correlação de forças no Congresso. Nesta segunda etapa, a discussão já não é mais quem entrou ou quem saiu, mas a quem apoiar. O novo balcão passa a ser inaugurado quando Governo e oposição mudam o foco para as eleições do ano que vem. A busca por aliados abriu a temporada de caça aos aliados. Mas haverá outras.
