O mais recente escândalo da República, agora no Ministério do Trabalho, tem gênesis na própria forma de preenchimento de cargos nas estruturas de poder. Desde a Constituição de 1988, quando se criou um presidencialismo de viés parlamentarista, o Executivo, a despeito do poder de agenda, tem sido refém de acordos muitas vezes resultado das circunstâncias, sem qualquer ligação ideológica. Para ter maioria, são cedidos cargos aos partidos da coalizão. Caso contrário, nada passa pelo Congresso.
Em decorrência disso, criou-se a prática da porteira fechada. Determinado partido ganha um ministério, com direito a indicar também os cargos estratégicos, praticamente sem interferência do próprio governo do qual faz parte. O que ocorreu no MT é a prova material dessa prática. O secretário-executivo, que pediu exoneração antes de ser demitido, foi indicado pelo antigo ministro Carlos Lupi, que deixou o cargo, mas não perdeu o poder. Paulo Pinto ainda chegou a trabalhar na terça-feira, só entregando o posto no final do expediente. O ministro Manoel Dias, outra escolha pessoal de Lupi, anunciou uma operação pente-fino nos convênios, responsáveis por desvios de milhões de reais.
Trata-se do típico jogo para a plateia, pois o cancelamento dos ditos convênios não indica que estará tudo resolvido. O poder de ação dos partidos que controlam ministérios lhes dá o direito de apenas trocar os atores, mantendo a essência de suas ações. Quando o próprio Lupi caiu, as indicações eram de que tudo seria diferente. Ledo engano; tiraram apenas o sofá da sala, como uma perfumaria típica de quem não tem a intenção de mudar nada.
