Os políticos, se não sabiam, agora já conhecem as razões de o povo ter ido às ruas em manifestações apartidárias para criticar as inações oficiais e a corrupção. Estão mal na fita. Uma pesquisa do Ibope, divulgada pela Transparência Internacional, aponta que cerca de 81% dos brasileiros consideram os partidos corruptos ou muito corruptos, isto é, que quatro de cada cinco pessoas põem em xeque a representação política no país. O levantamento foi concluído em março, três meses antes dos movimentos que se alastraram pelo país afora. O que ocorreu nas últimas semanas foram fatos previamente anunciados, mas não percebidos pelas instâncias de poder. Os números indicam ainda que, se comparados à percepção de moradores de outras áreas do planeta, fica claro que os brasileiros estão entre os mais descontentes. Na média dos 107 países que participaram da pesquisa, algo em torno de 65% dizem que os partidos são corruptos ou muito corruptos – bem abaixo do que no Brasil.
Os dados, apontando que a situação se agravou no Brasil nos últimos três anos, devem servir de dever de casa, embora não causem surpresa. Há tempos a gestão pública, seja no Executivo ou no Legislativo, tem sido questionada pela opinião pública, ora pressionada por impostos que não retornam como benfeitorias, ora pelo patrimonialismo, que é o uso do bem público em proveito de particulares. Na semana passada, os presidentes da Câmara e do Senado tiveram que se comprometer em cobrir o custo de voos particulares que, em outros tempos, estaria normalmente na sua rotina de trabalho. O deputado Henrique Eduardo Alves fez um trem da alegria com parentes e amigos para assistir ao jogo da final da Copa das Confederações, no Maracanã. O senador Renan Calheiros usou o jato da FAB para ir a um casamento em Porto Seguro.
Não é de hoje, porém, que a farra com equipamentos públicos faz parte dos rituais do poder. Só que há um novo cenário: as ruas querem transparência e cobram mudanças. Nos últimos 30 dias, fez-se mais do que em muitos anos, tanto no Executivo quanto no Legislativo, em suas diversas instâncias. Quando presidente, governadores, prefeitos, senadores, deputados (federais e estaduais) e vereadores aceleram suas agendas, há um claro indício de que poderiam ter caminhado mais. Faltou vontade política, só agora obtida pelo dono do mandato: o povo.
