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Empatia é cobrança permanente

editorial
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De Willian Cordeiro da Silveira, primeira vítima das ocorrências fatais causadas pelas fortes chuvas a ser identificada pela Polícia Civil em Juiz de Fora, a Piettro Cesar Teodoro Freitas, sexagésima quinta vida terminada precocemente por condições que vão muito além das estruturais e das chuvas, há muito mais, até mesmo, que famílias desoladas, desabrigadas e tragicamente traumatizadas em Juiz de Fora. Há uma urgência por empatia.

No jornalismo, empatia só pode significar trabalhar para as pessoas, dar e ser voz, e cobrar permanentemente pelo cumprimento de deveres relacionados aos direitos dos cidadãos. E este compromisso foi reforçado nas duas últimas semanas e permanecerá desta forma. Seguirá vigente por Willian, Piettro e cada nome homenageado na matéria publicada neste domingo. Não podemos nos esquecer dos mais de 65 atingidos pelas chuvas, que vão do Bairro Santa Rita ao Paineiras, Parque Burnier, Três Moinhos, Bom Jardim.

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Nesta esteira, não há falta de dados disponíveis que apontavam – e seguem indicando os riscos de novas perdas. Como chegamos a este ponto, afinal? São vários motivos. Problemas antigos potencializados. Entre eles, a urbanização sem freios. Como destacou a Tribuna nesta semana, Juiz de Fora só está atrás do Rio de Janeiro e de São Paulo entre as cidades brasileiras com maior área urbanizada em terrenos de alta declividade — encostas com inclinação superior a 30% – conforme levantamento do MapBiomas. O estudo contemplou o período de 1985 a 2024, e, de acordo com a pesquisadora Talita Micheleti, a nossa cidade desafia permanentemente a geografia, de forma extrema.

Passa, ainda, pelo levantamento do repórter Hugo Netto, publicado em 28 de fevereiro, em que há uma constatação de que 47% das ruas evacuadas em Juiz de Fora são citadas em pedidos por segurança desde 2005. E pela pesquisa do Núcleo de Estudos sobre Política Local (Nepol), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que observou que, entre 2000 e 2026, a Câmara Municipal registrou 8.400 proposições legislativas relacionadas a termos como “chuva”, “área de risco”, “contenção de encostas”, “enchente” e “deslizamento, mas que Parque Burnier, Três Moinhos  e Paineiras, três dos bairros mais atingidos pelas chuvas da última semana em Juiz de Fora, estão entre os menos mencionados nos pedidos de ação.

Voltando à manchete deste domingo, a homenagem é mais que necessária. Mas não pode ser apenas hoje. É um “lembrete coletivo” de que a memória deve ser legado. A transparência quanto às investigações e decisões dos órgãos públicos é tão necessária quanto são urgentes as políticas de prevenção a novos desastres e, principalmente, o combate às vulnerabilidades. Que venham ações. Casas e assistências às vítimas são o básico. A cobrança por medidas que busquem um futuro seguro e menos áreas vulneráveis geograficamente vai seguir. Por Willian. Por Piettro. Pelas muito mais de 65 vítimas.

 

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