A campanha de desarmamento a ser lançada hoje pelo Governo é um gesto importante na luta contra a violência, mas só terá eficácia se for seguida de outras ações. Na edição de ontem, a Tribuna apontou dados da Polícia Federal indicando que, enquanto 4.431 armas foram entregues espontaneamente pela população desde 2005, 9.783 foram registradas no mesmo período na instância regional abrangendo 130 municípios.
Na leitura desses números, é possível perceber que o registro de armas é bem maior que o entregue sem qualquer tipo de coação, apontando que outros caminhos precisam ser seguidos. Há os que insistem em dizer que o cidadão tem o direito de se defender com uma arma em casa, e foi essa a tese dominante no plebiscito de 2005, enquanto outros apontam que tal prerrogativa é ineficaz, pois os criminosos, quando partem para uma empreitada, agem sob o viés do nada a perder, enquanto o cidadão de bem, mesmo armado, fica impotente.
Trata-se de uma discussão sem fim, pois há também o lado cultural. Os EUA, por exemplo, seguem uma recomendação de Maquiavel ao Príncipe: de ter boas armas e boas leis. No Brasil, ter arma nem sempre é sinônimo de segurança. Ao contrário, de acordo com os próprios dados oficiais, a maioria dos crimes é praticada por armas legais.
O professor André Gaio, da Universidade Federal de Juiz de Fora, tem uma visão singular a respeito. Para ele, mais do que cadastrar, o importante é fazer uma espécie de recall, isto é, verificar se as armas continuam em poder de quem fez o registro, e para quem – em caso de negócio – foram transferidas. Ele entende ser uma forma eficaz de fazer o controle.
Mas têm razão as autoridades em, mesmo defendendo as campanhas de desarmamento, como a que hoje começa, apontar que as fronteiras brasileiras, além de extensas, são frágeis. Daí, enquanto não houver restrições ao tráfico, haverá sempre quem compre ilegalmente uma arma.
