O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nos oito anos de mandato, conseguiu um feito inédito: tirou das ruas as centrais sindicais, que dia sim, dia não, se mobilizavam para reivindicar direitos dos trabalhadores. Ele próprio é fruto dessa articulação, tendo sido um dos principais nomes do sindicalismo brasileiro, sobretudo nas memoráveis jornadas da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. Na sua gestão como chefe do Governo, as poucas greves foram pontuais e curtas, diferente do cenário enfrentado por sua sucessora. Dilma Rousseff trava uma queda de braço com os professores universitários, cuja paralisação já se aproxima dos dois meses, sem ter uma clara perspectiva de solução. Por enquanto, todas as propostas do Governo foram rejeitadas, e as universidades continuam sem aulas. Outros segmentos também já estão parados ou se preparam para ir à greve, em busca de melhores salários e condições de trabalho.
O que mudou de uma gestão para outra, embora ambas estejam sob a égide do mesmo partido? Numa observação rasa, é possível considerar a mudança de estilo. Lula era bom para pressionar, mas nunca foi afeito a ser pressionado, preferindo ceder e co-optar do que ir para o enfrentamento. Sua sucessora, de viés gerencial, parte para o confronto, conversa pouco e faz ameaças de corte de ponto. Como resultado, está batendo de frente com o funcionalismo público federal.
O efeito Lula, porém, não se esgotou na questão sindical. A sociedade, em suas várias instâncias, também saiu das ruas. Nas raras exceções, as manifestações têm pouca adesão. Os estudantes, que foram a principal marca contra o regime no final dos anos 1960, já não protestam ou, quando o fazem – como no caso das tarifas de ônibus -, agem em grupos estanques. A UNE não é mais a mesma, preferindo agir à sombra do Governo, de quem recebeu benesses ao curso dos últimos anos.
Quando a sociedade sai das ruas, ela própria é quem perde. Quando se manifesta, as instâncias de poder cedem. A Lei da Ficha Limpa foi a última grande ação coletiva, ao reunir quase dois milhões de assinaturas, para tirar dos plenários os políticos sem perfil ético. Agora, quando o Supremo Tribunal Federal julga o mensalão, não se vê nenhuma mobilização, curiosamente, nem contra os réus e, muito menos, a favor. A exceção são as redes sociais.
