Quem sai aos seus não degenera. Políticos convidados a fazer parte do Conselho de Ética do Senado – inclusive a presidência – estão recusando a indicação, pois, dessa forma, não passariam pelo constrangimento de um eventual julgamento do colega Demóstenes Torres, atualmente sem partido, mas prestes a ser chamado a prestar contas sobre seu envolvimento com o contraventor Carlinhos Cachoeira. Os senadores não escondem o constrangimento. Lobão Filho, do Maranhão, filho do ministro das Minas e Energia que lhe empresta o nome, foi taxativo: essa missão de julgar pares é muito espinhosa. Me deixe fora dessa!
Não é o primeiro nem será o último a evitar julgamentos dessa ordem, pois, como se diz em política, ninguém sabe o dia de amanhã. Demóstenes, um dos ícones da moralidade, cansou de pedir a cabeça de companheiros. Agora é a sua vez. O próprio Lobão, que tomou posse depois de recorrer à instância judicial, é precavido. Me botaram no Conselho contra a minha vontade, desabafou ao jornal O Globo.
Conselhos de ética são criados para julgar casos de decoro parlamentar, mas têm servido de instância para inocentar políticos, mesmo diante de provas evidentes. No ano passado, o Conselho de Ética da Câmara Federal se recusou a abrir processo de cassação contra a deputada Jaqueline Roriz, mesmo sabendo que ela foi flagrada recebendo dinheiro de terceiros. O argumento? Ela ainda não tinha mandato.
Esta é apenas uma das portas encontradas pela instância parlamentar para manter o corporativismo. Demóstenes vai cair por conta da pressão das ruas e da mídia, pois se depender de seus colegas, cumprirá seu mandato até o fim, mesmo sob extremo constrangimento.
