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Risco anunciado 

editorial
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No final de 2023, o Bairro Esplanada começou a ser visto de outra forma depois que o Projeto Colorindo o Habitar, coordenado e idealizado pela Secretaria de Governo, a partir do Programa Boniteza, criou um macromural com as casas que podem ser vistas das avenidas Coronel Vidal e Olavo Bilac, na Zona Norte de Juiz de Fora. Todas elas tiveram suas fachadas pintadas de forma que, juntas, representassem um nascer do sol com formas geométricas.

Mas, agora, desde o final de fevereiro deste ano, esse cenário mudou. Parte da estrutura veio abaixo com as fortes chuvas que atingiram a cidade. A Rua Nicolau Capelli, no Bairro Cerâmica, foi atingida pelos deslizamentos vindos do Esplanada. Cinco pessoas morreram.

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Na época em que as casas foram pintadas, foi anunciada, também, uma melhoria naquela localidade do bairro. O Programa Boniteza arrumou o escadão – principal acesso às casas – de modo que seus degraus ficassem padronizados. Arrumou, também, a iluminação, para que a área ficasse mais segura para os moradores e, além disso, os turistas. A ideia era que o projeto atraísse pessoas que tivessem interesse de ver de perto o macromural. Não foi falado, no entanto, na inauguração das reformas, sobre possibilidades de deslizamento e se alguma obra foi feita para evitar que o terreno cedesse.

Apesar disso, como mostra a matéria assinada por Vinicius Soares, desde 2001, sabia-se sobre o risco de desmoronamento daquela região, a partir de laudos da Defesa Civil aos quais a Tribuna teve acesso com exclusividade. O documento aponta que o local onde o Bairro Esplanada é localizado é uma “velha pedreira” e por ser de “grande declive (…) pode haver descalçamento das pedras, colocando-as em risco de descerem sobre a residência”.

Alguns acidentes já foram registrados no lugar. Em 2001 mesmo, como apurou o repórter, um idoso foi atingido por uma pedra que se soltou; momento em que foi alertado o risco de novos deslizamentos. Um engenheiro, naquele contexto, ainda apontou três possibilidades de intervenções com a finalidade de evitar uma tragédia (elas podem ser conferidas na matéria).

Antes mesmo das chuvas deste ano, registradas na semana do dia 23 de fevereiro, uma mulher foi soterrada também por um deslizamento vindo do Bairro Esplanada na Rua Nicolau Capelli. Mais uma vez, a Defesa Civil esteve ciente da situação, interditou duas casas e, em seguida, liberou a ocupação. Foi só com as cinco mortes que a interdição teve seu vigor estendido, e segue até hoje, nas ruas Nicolau Capelli, Mammed Camil e Expedicionário Antônio Novaes.

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Quando o Projeto Colorindo o Habitar foi elaborado, sabia-se, então, de toda essa possível situação. Claro que pensar no macromural como potencializador de pertencimento e atrativo turístico é importante para a comunidade, que usufruiu da mudança. No entanto, por outro lado, vidas poderiam ter sido salvas se em 2001 a mudança estrutural tivesse acontecido. Ou, ainda, se em 2023 a contenção de risco estivesse sido incluída no projeto do Programa Boniteza.

É por isso que, com tantas demandas pela cidade, é preciso não desviar o olhar de antigas questões. Não foi só no Esplanada que o risco estava anunciado – mesmo sendo sabido que o volume de chuvas foi exorbitante.

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