A voluntária decisão do senador Demóstenes Torres de sair do partido – antes que o DEM seguisse o conselho do dirigente da FIFA, Jérôme Valcke, e lhe desse um pontapé no traseiro – é um ato político de meio caminho andado, pois não encerra a polêmica em torno de seu nome e nem acalma os que querem sua cabeça numa bandeja. O senador goiano, que foi um bom parlamentar, jogou no lixo todo um trabalho de moralização da vida pública que desenvolveu ao longo de sua carreira, dando motivo aos defensores de maus feitos para dizerem que não são os únicos a agir à margem da lei. O envolvimento do parlamentar com um contraventor não é apenas uma questão pessoal, mas também álibi para autores de falcatruas que agora têm discurso próprio: não há ninguém isento na política.
Este, talvez, foi o pior dano da ação do senador, pois deixou os defensores da moralidade na parede, até mesmo como suspeitos para um número incontável de desafetos dentro e fora do Congresso Nacional. Demóstenes usa, agora, o caminho, que tanto condenou, de fugir da luta, sob o argumento de prejulgamento. Foi dessa forma que justificou sua desfiliação, embora ainda haja a possibilidade de renunciar ao cargo. As apostas são de que só não pede as contas pelo temor de acompanhar seu parceiro numa cela.
Mesmo tendo sido um defensor da moralidade, o parlamentar se igualou aos infratores e não pode estar isento de pena. Se houver algum jogo de cartas marcadas em nome do corporativismo, quem perde é o próprio Congresso, pois não está lidando com um caso recheado só de suspeitas ou indícios, mas de provas claras do jogo de interesse que mistura público e privado. As gravações são contundentes, e a própria postura do senador é emblemática. Promotor e delegado de polícia por profissão, ele não tem meios de reagir para virar o jogo. Ao contrário, admitiu que não era o Demóstenes, numa alusão de alguém que se viu sem chão, como num mundo de fantasia, algo típico de quem sofre de mitomania, acreditando nas próprias verdades, mesmo diante das claras evidências de serem irreais.
É, no entanto, necessário ressaltar que o senador não é o único a ter uma convivência perigosa com o contraventor. Se as investigações cumprirem o que delas se espera, outros atores políticos estarão comprometidos da mesma forma. Com a palavra, o próprio Congresso e a Polícia Federal.
