O choro das mães é sempre algo especial, pois ocorre em situações das mais inusitadas. É sempre, porém, marcado pela profundidade, seja na alegria ou na tristeza; na angústia da ida ou na expectativa da volta. Os filhos as movem. Na edição de hoje, a Tribuna inaugura uma série de reportagens sobre a violência urbana, na qual os atores – como vítimas ou autores – são os jovens. A cidade, que já ostentou índices de segurança acima da média nacional, vive o drama dos enfrentamentos, nos quais os envolvidos têm, na maioria das vezes, menos de 25 anos. Nesse contexto, os repórteres colheram depoimentos emocionados de mães de algozes e de vítimas, que explicitaram suas angústias num mesmo sentimento: o de perda. Umas, pela irreversibilidade da morte; outras, pela incapacidade de segurar a mão do filho, que, de uma certa forma, também comprometeu o próprio futuro.
Os dois sentimentos, que acabam se fundindo num só, são emblemáticos, pois demonstram a precária estrutura de grande parcela das famílias brasileiras, assistida apenas nos discursos das autoridades, mas vivente num mundo real de problemas e de abandono. São, em boa parte, mães que fazem o papel também de pai, de provedoras e de educadoras, num cenário em que elas próprias são vítimas. O drama dessas mulheres não impressiona os governos, que lidam apenas com estatísticas, sem se aprofundarem nas suas razões. Pela via mais fácil, diz-se apenas que são enfrentamentos de jovens que desconhecem os limites. Mas e a origem desses problemas?
Por mais que os especialistas indiquem, as ações de defesa de famílias carentes passam apenas pelos projetos de casa própria e alimentação. São fundamentais, é fato, mas ficam pontas soltas quando muitos desses aglomerados familiares estão distantes de projetos educacionais e de acompanhamento. Os jovens, no frenesi da busca da própria identidade, ou de exacerbação do pertencimento, deixam a vida lhes levar, sem conhecerem os limites que deviam ser impostos a eles. Mas como cobrar dessas mães que ora choram uma postura que elas também desconhecem? São vítimas das próprias circunstâncias, enquanto o discurso recorrente passa única e exclusivamente pela defesa da repressão.
O país tem uma dívida social que ainda vai demorar anos para ser paga, mas enquanto não se avançar, são poucas as esperanças de mudanças. Até quando?
