Quando a escola se ocupa demais em agradar, perde a chance de educar. Ao abdicar de sua voz crítica e pedagógica para não desagradar a clientela, o que era espaço de formação se converte em palco de entretenimento.
Diz-se por aí que os pais estão mais engajados na vida escolar dos filhos. E estão, sim – mas não como parceiros da educação, e sim como fiscais implacáveis, como se estivessem auditando uma empresa que deve prestar contas em relatórios e gráficos de desempenho. A pedagogia, nesse cenário, foi rebaixada ao papel de figurante nas assembleias digitais do grupo de WhatsApp. Portanto, não há espaço para reflexão crítica onde reina a lógica do consumidor.
A escola, que deveria ser o lugar de passagem da infância à cidadania, tem sido moldada como um ateliê de experiências personalizadas, voltado a satisfazer as expectativas de um cliente cada vez mais sensível à frustração. O aumento da busca por laudos que justifiquem qualquer desvio do esperado revela o desejo de blindar o indivíduo contra os percalços da vida. Nas reuniões de pais, o destaque não vai para os educadores, nem para as ideias pedagógicas transformadoras, mas para o pai de um aluno que exige “neutralidade” na aula de História.
A autonomia docente, na visão dos pais, virou quase um ato de rebeldia. O que se espera do professor não é que ensine com base em sua formação e experiência, mas que pergunte aos pais o que desejam que seus filhos aprendam – como se a escola fosse um self-service de conteúdos e o professor, apenas um garçom de saberes sob demanda.
Hoje, a maturidade é quase proibida na escola dominada pela vontade dos pais. O aluno pode tudo, desde que seus responsáveis assim determinem. Se há agressividade, a culpa é da vítima; se há desrespeito, o problema é do docente que não cativou; se há notas baixas, o erro está no método – nunca na falta de empenho.
Essa lógica forma jovens com autoestima narcísica e pouca autocrítica; preparados para viralizar, mas não para ouvir “não”. Neste aspecto, esse narcisismo se dá pela falta de empatia e a dificuldade em se relacionar, resultando em manipulação, exploração e danos nos relacionamentos.
Desta forma, infelizmente, ao invés de valorizar a condição humana, como Sócrates e sua humildade diante do saber, com a célebre frase “Só sei que nada sei”, os estudantes, apoiados por seus pais, apenas ressoam o “Eu sei tudo, e a escola e os professores estão errados”, ou seja, a escola, nesse contexto, não forma cidadãos – forma clientes.
A verdadeira escola não forma clientes satisfeitos, mas cidadãos inquietos, capazes de pensar o mundo e intervir nele. E isso exige, necessariamente, reconhecer no professor um intelectual comprometido com a formação de sujeitos livres, responsáveis e críticos. A verdadeira educação precisa de coragem para contrariar, não de submissão para agradar.
*Robson Ribeiro é filósofo e teólogo. Professor de Ensino Religioso, Filosofia, Sociologia e de Projeto de Vida em instituições de ensino de Juiz de Fora. Também é editor da Revista RHEMA.
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