Ícone do site Tribuna de Minas

O rei e o bode

tribunalivre destacada
PUBLICIDADE

Pelé o Rei do Futebol. Messi pode ser – para muitos, com boas razões, já é – o greatest of all time (da sigla G.O.A.T, muitas vezes resumida a goat, termo que pode ser traduzido como bode em português). A comparação falha sempre em perceber que não é a mesma coisa.

Assim que a Argentina se classificou para a final da Copa do Mundo 2026, um debate tomou o ambiente das coisas irrelevantes extremamente relevantes: Messi já teria superado Pelé? A pergunta, a nós brasileiros, gera uma autorreflexão constrangedora entre dois espectros que sempre nos rondam: o do ufanista, que vê no futebol o único princípio inegociável de superioridade do Brasil; e O do sujeito excessivamente autocrítico. que tem prazer em ver o primeiro se frustrar, trazendo as “verdades inconvenientes” de que já não somos tão bons assim. A verdade é que o debate confronta duas naturezas distintas de discussão.

PUBLICIDADE

O esporte não é como a arte, em que a competição sobre o melhor – inventada pelos americanos para enfraquecer os sindicatos dos artistas – sempre caminha para o subjetivo. Existem elementos objetivos no esporte. Alguém ganha e alguém perde. Alguém faz mais gols do que o outro. Alguém corre ou nada mais rápido. Alguém faz o ippon. Nesse universo de discussão, ainda considero Pelé superior. Ganhou mais Copas do Mundo, fez mais gols (não considerando a contagem eurocêntrica da Fifa). Não passou uma Copa sem marcar e foi relevante em todas as etapas do torneio. A mim, incomoda que se aceite o debate antes mesmo de a frieza dos números o aceitarem.

Ainda assim, é justo que se tragam argumentos favoráveis a Messi. Sua impressionante carreira no futebol de clubes (muito diferente da época de Pelé). O seu vice-campeonato em 2014. As suas colossais participações no título de 2022 e no possível título de 2026. Mas o que faz com que as pessoas defendam Messi como o bode está muito mais localizado nas disputas pelos prêmios individuais, coisa inexistente no futebol de outrora. Messi é o maior desse mundo individualizado, em que se torce por jogadores e não para equipes. O futebol de Cristiano, de Neymar, o futebol do jogador estrelado, em contato direto com seus fãs pelas redes e pelo conjunto de influenciadores que os cercam. Acredite, muito mais do que brasileiros ou espanhóis, os fãs de Cristiano Ronaldo serão os maiores decepcionados com um título argentino.

Messi, uma figura ímpar e interessantíssima, parece sempre deslocado nesse papel, desconfortável. É tímido, reservado, de poucas palavras. Talvez, o que o fez superar, com larga margem, essa luta pelo posto de bode seja justamente o elemento universal residual que há nele, como um homem deslocado de seu tempo.

E é nesse momento que devemos lembrar que o esporte é também como a arte. É nesse aspecto que Pelé se desarticula da disputa pelo título de bode e se torna Rei. Rei como Elvis, Mohammed Ali, Michael Jackson, Luiz Gonzaga, Madonna, Clark Gable, Chaplin, Jack Kirby, Hitchcock, Fellini. Pelé são os Beatles. Faz parte da arquitetura mental do Século XX. Foi retratado por Andy Warhol, o artesão do pop, que disse, com suas próprias palavras: “Pelé foi um dos poucos que contradisse minha teoria: em vez de 15 minutos de fama, ele terá 15 séculos.”.

PUBLICIDADE

Quinze séculos. Algo como Júlio César ou Cleópatra. Messi jamais alcançará isso, não por demérito pessoal, mas pela forma como o estrelato é feito hoje em dia. Messi são as redes sociais; Pelé, a televisão. Messi é quantitativamente conhecido por mais pessoas que Pelé, assim como Taylor Swift é, em comparação aos Beatles. Jamais proporcionalmente.

Se Lamine Yamal, que impressiona o mundo com 19 anos, conquistar três copas do mundo e um punhado de bolas de ouro, ele já será o novo bode. Mas não o novo Rei. A disputa de Messi jamais foi com Pelé. Foi com Ronaldo, Ronaldinho, Cristiano, Zidane, tantos outros grandes nomes que marcharam pelos campos. Mas isso não fará de Yamal Rei, assim como Messi, já em final de carreira, jamais será. Rei é sobre outra coisa.

PUBLICIDADE

*Mateus de Albuquerque é professor no Departamento de Ciências Sociais da UFJF

 

Esse espaço é para a livre circulação de ideias e a Tribuna respeita a pluralidade de opiniões. Os artigos para a seção serão recebidos por e-mail (leitores@tribunademinas.com.br). Para a versão impressa devem ter, no máximo, 30 linhas (de 70 caracteres) com identificação do autor e telefone de contato. O envio da foto é facultativo e pode ser feito pelo mesmo endereço de e-mail.

PUBLICIDADE
Sair da versão mobile