Na esquina da Rua Antônio Dias Tostes com Barão de Santa Helena, no bairro Granbery, há uma casa grande, bem antiga e muito bem conservada. Um imóvel já tombado como patrimônio histórico e cultural da cidade.
Ali, até semanas atrás, era possível observar com alguma frequência a chegada de um senhor com quase 90 anos. Ele subia a escada de acesso, sentava-se numa cadeira ou sofá para ler. Vez ou outra, recebia visitantes e caminhava com eles pelos cômodos apresentando sua biblioteca particular, jornais e revistas, seus livros publicados, sua pinacoteca e acervo fotográfico, as homenagens recebidas ao longo da vida e os objetos pessoais. Sempre compartilhando um bom café, biscoitos e pães de queijo.
Gostava de contar histórias e de trocar lembranças com qualquer pessoa que lhe dava o prazer do convívio naquelas horas.
Esse homem era TARCÍSIO DELGADO. O prefeito que por mais vezes governou a cidade de Juiz de Fora. Quatorze anos de mandato em três eleições conquistadas. Um recorde que dificilmente será superado. Ele foi o primeiro a vencer uma reeleição no município. Escritor e advogado brilhante, foi vereador e presidente da Câmara Municipal. Quando eleito para o parlamento local, foi o candidato mais votado logo em sua primeira candidatura. Foi Deputado Estadual e Federal. Foi candidato ao Senado e ao governo de Minas. Ocupou importantes funções nas administrações estadual e federal.
Seus mandatos de prefeito trouxeram grandes inovações na administração pública e lançaram novos nomes que se destacaram na política local e do país.
Tarcísio Delgado faleceu no dia 12 de setembro, aos 89 anos.
A cidade tem a obrigação de não permitir que seu acervo tão bem cuidado seja desfeito e disperso. Uma vez bem-organizado e enriquecido por outras doações pode ser uma necessária referência para pesquisadores.
Outros países têm um extremo cuidado com acervos particulares deixados por seus presidentes. Como acontece também no Brasil com as memórias de Getúlio Vargas, JK e Itamar Franco, por exemplo.
Há um provérbio oriental que diz: “Quando um homem morre é como se uma biblioteca inteira se incendiasse.”
Tarcísio Delgado é um desses homens. Sua memória merece ser preservada.
*Vanderlei Tomaz é escritor
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