O Brasil vive um cenário de crescente pressão sobre o orçamento das famílias. Em 2026, o país atingiu o maior índice de endividamento desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.
O avanço do endividamento está relacionado à uma combinação de fatores: juros elevados, aumento do uso do crédito rotativo, pressão do custo de vida e novas formas de consumo que ampliaram o acesso a compromissos financeiros. Nesse contexto, a dívida passou a fazer parte da realidade de milhões de brasileiros e precisa ser analisada para além de uma questão individual.
Durante muito tempo, a inadimplência foi associada principalmente à falta de planejamento ou disciplina do consumidor. Embora a organização financeira tenha um papel importante, essa visão isolada não considera a complexidade das decisões que levam uma pessoa a acumular dívidas. Muitas famílias entram em um ciclo em que o crédito aparece como solução imediata para equilibrar o orçamento, mas os juros e a falta de clareza sobre a capacidade de pagamento acabam ampliando o problema.
O desafio está em compreender que o endividamento não acontece apenas quando alguém perde o controle dos gastos. Ele também surge quando o consumidor precisa lidar com despesas essenciais maiores, renda comprometida, acesso facilitado ao crédito e pouca orientação sobre como avaliar suas escolhas financeiras.
É assim que a educação financeira ganha um papel estratégico. Mais do que ensinar conceitos sobre investimentos ou planejamento de longo prazo, ela precisa estar conectada às decisões reais do cotidiano: entender quanto entra de renda, quais são os gastos fixos, quais dívidas têm maior impacto no orçamento e qual valor realmente está disponível para um acordo.
A renegociação é uma alternativa importante para muitas famílias. Porém, quando realizada sem uma análise completa do orçamento, pode apenas transferir o problema para outro momento. Um acordo com parcelas que não cabem na renda mensal pode gerar uma nova inadimplência e prolongar um ciclo de dificuldade.
Por isso, a educação financeira precisa ser prática, acessível e aplicada às situações que fazem parte da rotina das pessoas. O consumidor precisa ter informações para avaliar suas possibilidades antes de assumir novos compromissos, compreender o impacto dos juros e tomar decisões que sejam sustentáveis no longo prazo.
Esse processo também exige uma mudança na forma como a sociedade trata o endividamento. A dívida ainda carrega um forte estigma, muitas vezes associada a culpa ou fracasso individual. Essa percepção pode dificultar a busca por ajuda e impedir que as pessoas tenham uma visão mais racional sobre o próprio cenário financeiro.
Uma abordagem mais eficiente passa por acolher o consumidor e oferecer ferramentas para que ele consiga reorganizar suas finanças com método. Ter dívidas não significa necessariamente ausência de responsabilidade; muitas vezes, significa enfrentar um ambiente econômico mais desafiador, com escolhas feitas sob pressão e pouca previsibilidade.
Empresas, instituições financeiras, organizações e iniciativas de educação têm um papel relevante nesse processo ao ampliar o acesso à informação e apoiar consumidores na construção de hábitos financeiros mais saudáveis. A relação com o dinheiro envolve comportamento, planejamento e tomada de decisão – aspectos que precisam ser desenvolvidos continuamente.
O endividamento das famílias brasileiras reforça a importância da educação financeira como uma necessidade social. Em um cenário de maior complexidade econômica, preparar as pessoas para compreender sua realidade financeira é uma das formas mais efetivas de reduzir ciclos de inadimplência e fortalecer a autonomia nas decisões do dia a dia.
*Luís Fernando Zanqueta é head de Finanças e RH da Bravo
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