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A greve como instrumento de luta da classe trabalhadora

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A greve não é um gesto impulsivo, nem um capricho momentâneo de determinadas categorias profissionais. Trata-se de um dos mais importantes instrumentos históricos de organização e luta da classe. Ao longo da história, praticamente todos os direitos sociais hoje considerados básicos foram conquistados por meio da mobilização coletiva dos trabalhadores. Jornada de trabalho limitada, férias remuneradas, descanso semanal, seguridade social e diversas outras garantias não surgiram por benevolência dos patrões ou do Estado. Foram resultado direto da greve e da pressão política exercida pelos trabalhadores.

O direito de greve é reconhecido internacionalmente como um direito fundamental da classe trabalhadora e, no Brasil, está assegurado pela Constituição Federal de 1988. Trata-se de um instrumento legítimo de pressão social que permite aos trabalhadores enfrentar relações de poder historicamente desiguais, nas quais a tendência natural é a precarização das condições de trabalho e a redução de direitos. A paralisação coletiva rompe, ainda que temporariamente, a lógica da normalidade produtiva que sustenta as instituições e as relações econômicas. É justamente essa interrupção que evidencia algo muitas vezes invisibilizado: nenhuma instituição funciona sem o trabalho de seus trabalhadores.

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No serviço público, a greve possui uma dimensão ainda mais significativa. Servidores públicos não lutam apenas por questões salariais ou corporativas. Ao reivindicarem carreira, estrutura institucional, concursos públicos e condições adequadas de trabalho, também defendem a qualidade dos serviços prestados à população. Defender os trabalhadores do serviço público é, em última instância, defender o próprio serviço público e o acesso da sociedade a direitos fundamentais como educação, saúde, ciência e assistência social.

É nesse contexto que se insere o movimento grevista dos trabalhadores das universidades federais. Quando trabalhadores de uma universidade federal entram em greve, não estão apenas reivindicando melhorias pontuais. Estão denunciando processos mais amplos de precarização institucional, insuficiência de investimentos e desvalorização do trabalho no setor público. Ao se mobilizarem, afirmam um princípio fundamental: não existe educação pública de qualidade sem trabalhadores valorizados, condições dignas de trabalho e políticas públicas comprometidas com o fortalecimento das instituições.

Ao longo da história, entretanto, a greve sempre enfrentou resistência. Não raramente, trabalhadores mobilizados são acusados de irresponsabilidade ou de causar prejuízos à sociedade. Esse discurso não é novo. Ele acompanha praticamente todas as grandes mobilizações da classe trabalhadora desde o surgimento do movimento operário moderno e busca deslegitimar a organização coletiva dos trabalhadores. Em muitos casos, essa crítica não parte apenas de setores políticos ou econômicos interessados em enfraquecer os movimentos sociais, mas também de trabalhadores que, por diferentes razões, não reconhecem plenamente o papel histórico da greve.

No entanto, é importante afirmar com clareza: quando trabalhadores criticam movimentos grevistas sem compreender sua dimensão histórica e política, acabam muitas vezes reproduzindo narrativas que favorecem justamente aqueles que se beneficiam da desorganização da classe trabalhadora. A deslegitimação da greve sempre foi uma estratégia utilizada para enfraquecer a capacidade de mobilização coletiva e limitar a conquista de novos direitos.

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A greve nunca foi um caminho fácil. Ela implica sacrifícios, enfrentamentos políticos e, muitas vezes, incompreensão social. Ainda assim, permanece como um dos poucos instrumentos capazes de equilibrar relações de poder profundamente desiguais no mundo do trabalho.

Os trabalhadores da Universidade Federal de Juiz de Fora que hoje participam do movimento grevista exercem um direito constitucional e reafirmam uma tradição histórica de luta coletiva em defesa da valorização do trabalho e do fortalecimento das instituições públicas. Criticar essa mobilização sem considerar seu significado histórico e político revela, muitas vezes, uma compreensão limitada sobre as próprias conquistas sociais que estruturam a vida em sociedade.

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A greve não representa um problema a ser eliminado, mas um instrumento democrático que expressa a capacidade dos trabalhadores de se organizarem para defender direitos, dignidade e justiça social. Defender o direito de greve é, portanto, defender a própria possibilidade de que trabalhadores — do setor público ou privado — continuem tendo voz e força coletiva para enfrentar processos de precarização e retirada de direitos. Em última instância, a greve reafirma uma verdade histórica fundamental: direitos não são concessões — direitos são conquistas.

*Gabriel Pigozzo Tanus Cherp Martins é servidor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

 

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