As chuvas dos últimos dias têm sido um grande desafio para Juiz de Fora. Em 24 horas foram registradas marcas que superam o esperado para o mês inteiro. A cidade se transformou: ruas e avenidas alagadas, carros submersos, deslizamentos de encostas.
Apesar desses eventos pegarem a população desprevenida, eles não são nenhuma novidade para a cidade, cuja história é marcada por desastres de grandes proporções. Mas seriam esses desastres considerados “naturais” e, portanto, consequência inevitável da topografia local e de suas dinâmicas físicas?
Ao analisarmos as características topográficas do município, é possível identificar os chamados “mares de morros” e vales encaixados que impõem limites físicos à ocupação. Ao mesmo tempo, a histórica retificação de trechos do Rio Paraibuna, bem como a impermeabilização das áreas de sua planície – onde o Rio Paraibuna e seus afluentes continuam a buscar espaço para transbordar – além da ocupação, por vezes irregular, de vertentes íngremes, convergem para a consolidação de situações de risco iminente. Não à toa, segundo o Cemaden, Juiz de Fora está na nona posição entre os municípios brasileiros com maior população ocupando áreas de risco.
Assim, o que tem sido observado na cidade é, na verdade, resultado da interação entre eventos climáticos intensos e um modelo de urbanização que negligencia as dinâmicas naturais. O desastre é, portanto, fruto da combinação desses fatores, não podendo ser reduzido à categoria de “natural”.
É preciso pontuar, contudo, que o impacto desses eventos atinge a população de maneiras diferentes. O grau de resiliência – isto é, a capacidade de resistir e recuperar-se de um desastre – varia conforme o nível de vulnerabilidade ao qual cada parcela da população está exposta. Os bairros que mais carecem de infraestrutura têm, diante da ocorrência de uma tempestade, maior probabilidade de perdas materiais e de vidas.
Sendo assim, Juiz de Fora precisa agir na gestão do risco para não ter de agir na gestão da crise. O caminho passa pelo planejamento urbano de base científica, que respeite as características e dinâmicas naturais e considere os diferentes graus de vulnerabilidade social. A prevenção é, antes de tudo, uma decisão política de preservação da vida.
Minha sincera solidariedade a todas as pessoas que, de alguma maneira, foram afetadas.
* Bianca Giordano Salgueiro é geógrafa e mestranda em Geografia Física

