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Rachaduras e risco de desabamento: moradores processam Prefeitura de Simão Pereira por danos em casas após construção de poços tubulares

Simão Pereira

Moradores apontam que rachaduras e danos estruturais foram causadas pela construção dos poços tubulares. ( Foto: Leonardo Costa)

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Moradores do Bairro Balança, no município de Simão Pereira, entraram na justiça contra a Prefeitura e a Câmara Municipal daquela cidade, alegando que poços tubulares construídos em 2023 pelo Executivo causaram rachaduras e danos estruturais em suas casas e no solo, gerando risco à segurança local. De acordo com a ação judicial, as obras, apresentadas como solução para garantir o abastecimento da cidade, foram realizadas sem estudo prévio de impacto ambiental. Dois dos poços foram perfurados em Área de Preservação Permanente (APP), a uma distância menor que 30 metros de um curso d’água, em violação à legislação ambiental. Em março de 2025, uma tutela provisória de urgência determinou a paralisação completa dos poços. No entanto, a comunidade ainda convive diariamente com a insegurança e o medo do risco de desabamento dos imóveis, e questiona a ausência do Poder Público. A ação, ajuizada em fevereiro deste ano, solicita a suspensão imediata dos poços, produção de provas técnicas, divulgação de laudos e bloqueio de verbas públicas para custear reparos nos imóveis.

As obras de construção dos seis poços tubulares aconteceram entre 29 de junho e 2 de julho de 2023 e foram inauguradas no mesmo ano, entre novembro e dezembro. Pouco tempo depois, a população começou a observar rachaduras no solo, que cresceram ao longo de 2024 e atingiram paredes, muros, pisos, colunas das garagens e outros pontos das residências. Os danos, conforme consta nos documentos do processo judicial, são resultados do fenômeno conhecido como superexplotação — quando a retirada de água do aquífero é maior do que sua capacidade natural de reposição — e da subsidência do solo, onde o terreno cede ou afunda devido ao rebaixamento abrupto do lençol freático. Uma das advogadas que representam os moradores, Laura Nazareth, explica que o problema decorre diretamente da falta de estudos prévios sobre a capacidade do aquífero. “Quando a taxa de retirada de água é maior do que a de recarga, o solo perde sustentação e cede. Esse processo, conhecido como subsidência, é exatamente o que vimos acontecer no bairro”, afirma.

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Embora apenas cinco moradores moveram a ação judicial, os documentos apontam que o problema é muito mais amplo: dezenas de residências do Bairro Balança teriam sido atingidas pelas rachaduras atribuídas ao funcionamento dos poços profundos. Um abaixo-assinado foi organizado por moradores que, ao perceberem danos simultâneos no solo e nas estruturas de suas casas, pediram a paralisação imediata dos poços. A Prefeitura de Simão Pereira, entretanto, recusou o pedido, argumentando que não havia provas de relação entre os poços e as rachaduras. A Administração municipal chegou a sugerir que os danos seriam decorrentes de falhas construtivas.

Segundo o advogado Sinval Vicente, que também representa os moradores, os documentos reunidos ao longo do processo mostram o contrário. “As rachaduras apareceram logo após o funcionamento dos poços, e os próprios laudos evidenciam isso. Entramos na Justiça porque, além dos danos materiais e morais, houve falhas ambientais graves. Tudo isso já está comprovado”, afirma. Ele também destaca que, segundo o áudio de uma audiência pública, o prefeito de Simão Pereira, David Carvalho Pimenta (União), teria reconhecido irregularidades nos poços.

‘Eu não durmo’, diz moradora de uma das casas mais atingidas

Roseli teme o desabamento da própria casa, uma das mais afetadas no Bairro Balança. (Foto: Leonardo Costa)

Em uma audiência pública realizada em novembro de 2024, áudios mencionados nos autos indicam que mais de 50 casas foram afetadas. Apesar disso, a Prefeitura argumentou, na época, que apenas três moradias precisariam de atenção especial, segundo laudo de seu engenheiro. Entre as casas mais atingidas, com risco iminente de desabamento, está a de Roseli Procópio, de 41 anos, residente do Balança e mãe de uma menina de 11 anos. Ela convive há dois anos com rachaduras que, segundo ela, surgiram logo após o poço entrar em funcionamento. “As primeiras rachaduras apareceram lá no portão. Não sei se foi quando terminaram de furar ou quando começou a funcionar, mas foi ali que eu vi a primeira.”

Preocupada, Roseli procurou um parlamentar do Legislativo municipal, que levou a situação ao prefeito. Segundo ela, parte dos danos foi reparada, mas as trincas voltaram a aparecer dias depois. “Eles arrumaram a primeira rachadura lá embaixo. Abriu de novo. Depois, foi ficando cada vez pior.” Com o avanço das fissuras, o medo se tornou rotina: “Eu morro de medo de ficar aqui. Não durmo direito. Quando começa a chuva, eu não durmo. Saí do meu quarto e passei a dormir nos fundos, com medo dessa parte cair.”

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Segundo ela, a situação afetou diretamente sua saúde, e agora Roseli convive com dormência e formigamento nas mãos. Após consulta com cardiologista, ouviu que o problema é emocional. “Ele falou que é ansiedade, que eu estou passando por um momento muito difícil. E é verdade. Eu não tenho sossego.” Roseli vive na casa com o marido e a filha. A menina, segundo a mãe, parou de brincar na parte de frente do imóvel. “Eu falo com ela: não fica aí. Fica para os fundos. A gente fica correndo risco de vida aqui dentro.”

A moradora diz que pediu diversas vezes uma moradia temporária à Prefeitura, que nunca foi concedida. “Ele (o prefeito) mandou dizer que era para eu esperar. Estou esperando até hoje. Foi por isso que eu entrei na Justiça.” A casa, fruto de anos de trabalho, hoje é motivo de preocupação. “Levei anos e anos para fazer a minha casa. Para eles fazerem o que eles fizeram em dias”, afirma.

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Prefeitura de Simão Pereira nega omissão e diz que situação está resolvida

Prefeitura afirma que situação foi resolvida em outras residências. (Foto: Leonardo Costa)

Procurada, a Prefeitura de Simão Pereira negou qualquer omissão e afirmou “desconhecer o cenário preocupante” relatado pelos moradores. Segundo o Executivo, toda a situação já teria sido resolvida, com a recuperação das casas atingidas — exceto as duas cujo reparo não foi concluído porque seus proprietários teriam “optado por entrar na Justiça, não aguardando a equipe da Prefeitura”. A Administração argumenta que a demora na recuperação desses imóveis decorre exclusivamente dessa escolha.

De acordo com o Governo municipal, vistorias foram realizadas em todas as residências potencialmente afetadas, seguidas de uma reunião pública na Câmara, com presença de moradores e vereadores, na qual um estudo técnico contratado pelo Município teria sido apresentado “de forma transparente e aberta”. A Prefeitura afirma que “nada foi ocultado ou escondido” e que, após a reunião, organizou-se financeiramente para iniciar as intervenções já executadas nas demais casas atingidas.

Os documentos da ação judicial mostram que o Executivo solicitou uma vistoria à Defesa Civil de Juiz de Fora depois que as rachaduras passaram a atingir também o solo da via pública. Moradores afirmam que o documento com o resultado da análise nunca foi divulgado. Em nota, a Prefeitura de Simão Pereira confirmou que acionou a Defesa Civil juiz-forana e declarou que a equipe do órgão “compareceu, visitou as casas juntamente com os técnicos do Município e deu orientações”, ressaltando que essa atuação ocorreu de forma informal, no âmbito de uma cooperação entre municípios vizinhos, já que a Defesa Civil de Juiz de Fora “não tem competência para atuação no Município”. Ainda segundo o Executivo, as observações feitas durante essa visita motivaram a contratação de uma empresa especializada para elaborar um estudo completo — o mesmo apresentado na reunião na Câmara.

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Por outro lado, em resposta à Tribuna, a Defesa Civil de Juiz de Fora afirmou que auxilia outros municípios apenas mediante convênio formal, condição necessária para produção de estudos e relatórios técnicos. Informou ainda que, “neste caso, não houve a formalização legal do termo de convênio necessário para início da cooperação técnica entre as cidades”.

Sobre a exigência de estudos hidrogeológicos e ambientais prévios, como determina a Resolução 22/2002 do Conselho Nacional de Recursos Hídricos e a Lei Estadual nº 13.199/1999, a Prefeitura diz que cumpriu integralmente as normas, afirmando possuir tanto a autorização de perfuração quanto a outorga para uso dos poços. Por fim, a gestão municipal reiterou que segue à disposição para resolver a situação dos dois moradores que permanecem em litígio, afirmando que a demora do procedimento “está sendo provocada unicamente por eles”.

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