Um homem de 23 anos, que trabalhava como auxiliar de aprendizagem na Escola Municipal Três Marias (CAIC), unidade de modelo cívico-militar em São João Nepomuceno, a 65 quilômetros de Juiz de Fora, é investigado após denúncias oficiais envolvendo duas meninas menores de 14 anos. Os casos são distintos, mas os boletins de ocorrência apontam o mesmo suspeito.
Os registros foram feitos entre abril e julho deste ano e apresentam, de forma preliminar, naturezas como estupro de vulnerável, importunação sexual, perseguição e ameaça. A Secretaria Municipal de Educação do município informou que o funcionário, que mantinha contrato temporário com o município, foi desligado imediatamente após a administração tomar conhecimento da denúncia mais recente.
A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) confirmou a investigação envolvendo o homem, mas informou que os inquéritos tramitam sob sigilo para preservar as crianças.
Pai encontrou mensagens no celular da filha
O caso mais recente foi comunicado à polícia no dia 7 de julho. Conforme o histórico da ocorrência, ao qual a Tribuna teve acesso, o pai de uma menina de 11 anos verificou o celular da filha e encontrou mensagens supostamente enviadas pelo então auxiliar da escola por meio de uma plataforma de mídia social.
Segundo o relato apresentado à PC, o homem demonstrava interesse em encontrar a criança sem a presença de outras pessoas. Preocupado com o teor da conversa e com a diferença de idade, o pai procurou a direção da escola.
Também foram encontrados em aplicativo de mensagem registros de envio de fotografias no modo de visualização única. Como os arquivos já haviam sido abertos, não foi possível verificar o conteúdo.
A ocorrência foi registrada com a natureza preliminar de importunação sexual contra pessoa menor de 14 anos. A classificação inicial pode ser alterada durante a investigação, de acordo com os elementos reunidos pela Polícia Civil.
Família denunciou ameaças após registro policial
No dia seguinte, o pai da criança voltou a procurar a polícia após receber mensagens atribuídas ao investigado. O novo boletim foi registrado como ameaça.
De acordo com o documento, também obtido pela Tribuna, as mensagens apresentavam referências a possíveis agressões contra o pai, à divulgação de fotografias e a consequências direcionadas à família.
Uma das mensagens registradas no boletim continha uma ameaça direta de agressão. O pai informou que temia pela segurança da filha e dos demais familiares. Não houve prisão durante o atendimento da ocorrência.
Em vídeo publicado nas redes sociais, o pai da menina afirmou que decidiu se manifestar por considerar que o caso não vinha recebendo a devida atenção. “Estão todas as provas, estão todas as ameaças, está tudo ali no meu celular”, declarou. Ele relatou ter recebido ameaças de morte e agressão e cobrou explicações da Secretaria Municipal de Educação sobre a passagem do investigado por outras unidades da rede.
O responsável também afirmou que outros pais teriam procurado a polícia, mas a quantidade de possíveis outros casos não foi confirmada oficialmente, além dos dois casos relatados nesta matéria.
Primeiro caso foi denunciado em abril
O mesmo homem já havia sido apontado em outra ocorrência registrada no dia 11 de abril. Na ocasião, a mãe de uma menina de 12 anos procurou a Polícia Militar (PMMG) após localizar conversas, fotografias e outros arquivos no celular da filha.
Conforme o boletim, parte do conteúdo estava armazenada em aplicativos de mensagens e em ferramentas utilizadas para esconder arquivos. A menina relatou que o homem teria iniciado a aproximação quando ela ainda tinha 11 anos e mantido o contato mesmo após ser informado sobre a idade.
Segundo o relato apresentado aos policiais, o investigado teria beijado a criança sem consentimento após ela completar 12 anos. O boletim também registra a denúncia de atos de natureza sexual ocorridos fora do ambiente escolar, configurados como estupro de vulnerável.
O registro aponta ainda que o homem teria orientado a menina a esconder mensagens e fotografias, apagar conversas e fornecer informações falsas aos familiares para manter o contato em segredo.
Entre os materiais apresentados à polícia estava uma mensagem atribuída ao suspeito e enviada à mãe da criança. No texto, ele afirmou que o que havia feito era “imperdoável” e que “o errado é 100% eu”. Também pediu que a menina não fosse responsabilizada e disse estar preparado para enfrentar as consequências.
A Polícia Militar realizou buscas em um endereço relacionado ao suspeito, mas ele não foi localizado naquele momento. Os arquivos digitais permaneceram sob responsabilidade da família para posterior apresentação à Polícia Civil.
Mãe registrou ocorrência por perseguição
Dois dias depois, em 13 de abril, a mãe da menina de 12 anos retornou à Polícia Militar. Ela relatou ter recebido uma mensagem de um número desconhecido, supostamente enviada pelo mesmo homem.
Conforme o boletim, o remetente afirmava que pretendia continuar mantendo contato com a criança e mencionava a possibilidade de fugir com ela. A mensagem também indicava que ele não aceitaria o afastamento determinado pela família.
Diante do teor insistente da mensagem, o caso foi registrado como perseguição. O documento informa que o suspeito não foi preso durante o atendimento.
Em 18 de abril, a mãe procurou novamente a polícia após receber outro SMS. De acordo com o registro, o remetente insistia na existência de um suposto relacionamento com a menina e afirmava que a mãe poderia se arrepender por impedir o contato.
A nova ocorrência foi classificada como ameaça. A mulher foi orientada a preservar as mensagens para apresentá-las às autoridades responsáveis pela investigação.
Secretaria afirma que servidor foi desligado
Em nota, a Secretaria Municipal de Educação de São João Nepomuceno informou que o homem exercia temporariamente o cargo de auxiliar de aprendizagem junto ao município.
A pasta declarou que, após tomar conhecimento dos fatos, realizou o desligamento imediato do funcionário “diante da gravidade dos fatos narrados” e orientou o pai da menina a registrar a ocorrência policial.
A secretaria também afirmou que, até a data da dispensa, não havia registros ou informações internas sobre conduta inadequada atribuída ao servidor. O comunicado não esclarece se o Município havia sido formalmente informado sobre a ocorrência registrada em abril.
A Prefeitura informou que oferece apoio à família e que está prestando informações à Polícia Civil e ao Ministério Público. O município também orientou outras famílias que possam ter passado por situações semelhantes a procurar as autoridades policiais e a Secretaria de Educação.
Ainda segundo a nota, a Administração municipal pretende colaborar com a apuração e aguarda a adoção das providências pelas autoridades responsáveis.
Polícia Civil mantém investigação sob sigilo
A Polícia Civil confirmou que investiga um registro de estupro de vulnerável ocorrido em São João Nepomuceno e que o suspeito trabalhava em uma instituição de ensino.
Em nota, a corporação declarou que “os inquéritos policiais tramitam sob sigilo”, em observância ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e com o objetivo de preservar as vítimas.
A instituição informou ainda que outras informações serão divulgadas em momento oportuno, desde que a publicação não prejudique o andamento das investigações.
A nota não informa se o suspeito foi indiciado, se houve pedido de prisão ou se o Ministério Público apresentou denúncia à Justiça. A versão dele ou de sua defesa não foi apresentada nos boletins acessados pela reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.

