Cinco milionários, quatro candidatos sem bens declarados e uma diferença que chega a R$ 13,3 milhões. As declarações apresentadas à Justiça Eleitoral pelos 11 concorrentes ao Governo de Minas revelam um cenário de forte disparidade patrimonial na eleição de 2026. A Tribuna de Minas levantou quanto cada candidato declarou e ouviu o cientista político Luiz Ademir de Oliveira, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que explicou a importância da declaração de bens para a transparência do processo eleitoral, a fiscalização dos candidatos e como esses dados servem também frente a corrupção.
Total de bens de cada candidato ao governo de Minas
– Flávio Roscoe (PL): R$ 13.350.362,21
– Alexandre Kalil (PDT): R$ 5.941.176,84
– Mateus Simões (PSD): R$ 2.904.492,23
– Gabriel Azevedo (MDB): R$ 1.702.153,88
– Patrus Ananias (PT): R$ 1.247.212,54
– Cleitinho Azevedo (Republicanos): R$ 956.564,03
– Indira Xavier (UP): R$ 479,89
– Ben Mendes (Missão): Não há bens a declarar
– Henrique Áreas (PCO): Não há bens a declarar
– Rafael Duda (PSTU): Não há bens a declarar
– Túlio Lopes (PCB): Não há bens a declarar
Os candidatos milionários ao Governo de Minas
Com o maior patrimônio entre os candidatos, Flávio Roscoe (PL) declarou R$ 13.350.362,21 em bens à Justiça Eleitoral. Presidente licenciado da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), o empresário disputa um cargo eletivo pela primeira vez e, por isso, não possui declarações de eleições anteriores para comparação.
Ao analisar o cenário mineiro, o cientista político e professor Luiz Ademir destaca a disparidade patrimonial entre os candidatos e observa que, em alguns casos, os valores podem estar relacionados às atividades exercidas por cada um. Para ele, Roscoe é um desses casos.
“É um patrimônio bem alto, mas está relacionado também à sua atividade empresarial”, afirma. Segundo o pesquisador, a trajetória profissional do candidato ajuda a compreender a diferença em relação aos demais concorrentes. Na apresentação dos bens do empresário e candidato do PL, consta, por exemplo, imóveis residenciais e comerciais, automóveis, além de ações e aplicações bancárias.
Quem também aparece entre os candidatos com patrimônio milionário é Alexandre Kalil (PDT), que declarou R$ 5.941.176,84 em bens. Ex-presidente do Clube Atlético Mineiro (CAM), cargo que ocupou entre 2008 e 2014, Kalil ingressou na política após deixar o comando do clube. Em sua primeira disputa eleitoral, em 2016, foi eleito prefeito de Belo Horizonte. Quatro anos depois, conquistou a reeleição ainda no primeiro turno.
Em 2022, porém, ele deixou a Prefeitura para disputar o Governo de Minas, mas acabou derrotado por Romeu Zema (Novo). Com três eleições no currículo antes da disputa deste ano, Kalil também acumula um histórico de declarações patrimoniais à Justiça Eleitoral, o que permite acompanhar a evolução dos bens informados pelo candidato ao longo de sua trajetória política. Na última eleição ao governo mineiro, Kalil havia declarado R$ 3.652.820,88 em bens. Isso significa que nestes últimos quatro anos em que Kalil não exerceu cargo público, o patrimônio aumentou cerca de 62%. Entre os bens indicados agora em 2026, estão: automóveis (carros e motos), saldos em conta corrente e participação na propriedade de imóveis.
“Já numa faixa intermediária, você tem os candidatos como Mateus Simões (PSD), que é o atual governador, que tem um patrimônio de R$ 2.904.492,23, que é menor do que ele declarou em 2022”, explica o professor sobre o político que tem o terceiro maior patrimônio. Ex-vice-governador, Simões assumiu o comando de Minas Gerais em março de 2026, após a renúncia de Romeu Zema, e agora tenta a reeleição. Na comparação com 2022, quando concorreu como vice na chapa de Zema, Simões declarou cerca de R$ 80 mil a menos em bens. Entre os bens, apresentados, estão, participação na posse de imóveis, aplicação de renda fixa e outros bens móveis.
Logo atrás aparece Gabriel Azevedo (MDB), que declarou R$ 1.702.153,88 em bens. Ex-vereador de Belo Horizonte por dois mandatos, ele também disputou a Prefeitura da capital em 2024, quando informou um patrimônio quase R$ 500 mil menor.
“É um patrimônio que aumentou 36,86% em relação a 2024”, destaca Luiz Ademir, que relaciona parte da variação à compra de um imóvel de R$ 406 mil. O ex-vereador de Belo Horizonte declarou posse, por exemplo, de R$35 mil em bicicletas, aplicações de renda fixa e imóveis.
Com R$ 1.247.212,54 em bens declarados, Patrus Ananias (PT) fecha o grupo de candidatos com patrimônio superior a R$ 1 milhão. Dono de uma longa trajetória política, o petista já foi vereador e prefeito de Belo Horizonte, além de ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e do Desenvolvimento Agrário. Na Câmara dos Deputados, exerceu mandatos entre 2003 e 2007 e, desde 2015, ocupa uma cadeira de deputado federal. Na última eleição que disputou, em 2022, Ananias havia declarado R$ 1.025.194,65 em bens. Quatro anos depois, o patrimônio informado à Justiça Eleitoral cresceu cerca de R$ 222 mil, o que, na visão do professor, se deve a compra e venda de imóveis, de carros e aplicação em investimentos.
Líder nas pesquisas, Cleitinho declara o segundo menor patrimônio entre candidatos com bens
O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), que lidera as pesquisas de intenção de voto no estado, declarou R$ 956.564,03 em bens. Antes de chegar ao Senado, foi eleito vereador em 2016 e deputado estadual em 2018. Em 2022, conquistou uma vaga de senador, com mandato iniciado em 2023 e previsto até 2031. Naquela eleição, havia declarado R$ 544.570,76 em patrimônio. Quatro anos depois, o valor informado à Justiça Eleitoral aumentou cerca de R$ 412 mil, uma alta de aproximadamente 75,7%. Entre os bens declarados, Cleitinho apontou ter posse de dinheiro em contas correntes, quota de participação em empresa, uma casa em financiamento e automóveis.
“A partir daí, os demais candidatos ou não têm patrimônios declarados, ou têm patrimônios bem baixos, como é o caso da Indira Xavier, candidata da UP, que tem um patrimônio de apenas R$ 479,89, o que é depositado na sua conta corrente, que é um valor muito pequeno”, avalia o cientista politico. Outros quatro concorrentes – Ben Mendes (Missão), Henrique Áreas (PCO), Rafael Duda (PSTU), e Túlio Lopes (PCB), informaram à Justiça Eleitoral não ter bens a declarar. Segundo Luiz Ademir, esses casos figuram ainda mais a discrepância.
Para que esses dados servem? especialista explica
A Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais que trazem os dados sobre quanto cada candidato declarou de bens é tida como fundamental para a transparência do processo eleitoral, na avaliação de Luiz Ademir. Segundo ele, além de contribuir com o combate ao eventual enriquecimento ilícito daqueles que estão na vida pública, a ferramenta também possibilita acompanhar o aumento ou perda de bens conforme aquele candidato vai galgando cargos públicos.
“Isso traz informações importantes para que o eleitor saiba qual é o patrimônio do candidato, se ele é coerente com a atividade exercida e se, ao longo dos anos, não aumentou de forma exponencial – o que pode sinalizar algum indício de irregularidade. Isso faz com que o candidato tenha essa preocupação, porque os dados também estão relacionados à declaração do Imposto de Renda. Essas informações ficam disponíveis ao público, tanto para os eleitores quanto para os órgãos responsáveis pela fiscalização dos candidatos”, explica. Na avaliação do professor, a divulgação dessas informações se torna ainda mais relevante diante do impacto da corrupção sobre a credibilidade das instituições políticas brasileiras.
De olho em quem burla a declaração
Apesar de avaliar positivamente a divulgação dos bens, Luiz Ademir ressalta que as informações declaradas nem sempre correspondem à totalidade do patrimônio dos candidatos. Segundo ele, há formas de ocultar parte dos recursos, como transferi-los para familiares ou terceiros.
“Não necessariamente o que é tornado público revela, de fato, o patrimônio desses políticos”, afirma. Essa possível discrepância, acrescenta, pode se tornar evidente em escândalos de desvio de recursos que envolvem quantias muito superiores aos bens informados à Justiça Eleitoral. Por isso, na avaliação do professor, o eleitor também deve estar atento a eventuais omissões, inclusive aquelas feitas de forma ilícita.
Veja também os bens declarados pelos candidatos a vice-governador de Minas
Indicados para comporem as chapas majoritárias no estado, os postulantes à vice-governadoria também precisaram prestar conta dos respectivos bens:
- O ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais Jarbas Soares (PSB), vice de Patrus Ananias (PT), declarou R$ 7.838.326,83
- A vereadora de Montes Claros Maria Helena Lopes (MDB), vice de Gabriel Azevedo (MDB), declarou R$ 3.225.671,11
- O ex-deputado e ex-secretário de Estado Danilo de Castro (União Brasil), vice de Mateus Simões, declarou R$ 3.050.227,06
- O ex-deputado Carlos Mosconi (PSDB), vice de Alexandre Kalil (PDT), declarou R$ 3.000.000,00
- O ex-prefeito de Patos de Minas Falcão (Republicanos), vice de Cleitinho (Republicanos), declarou: R$ 1.178.441,58
- A professora Diana de Cássia (PSTU), vice de Rafael Duda (PSTU), declarou R$ 64.060,44
- O policial Cabo David Souza (Missão), vice de Ben Mendes (Missão), declarou R$ 28.848,00
- O professor Renato Campos Amaral (UP), vice de Indira Xavier (UP), declarou R$ 12.100,00
- O estudante Warlen Nunes (PCB), vice de Túlio Lopes (PCB), informou não ter bens a declarar.
- A vereadora de Uberaba Ellen Miziara (PL), vice de Flávio Roscoe (PL), informou não ter bens a declarar.
- O pescador Estevão Gomes (PCO), vice de Henrique Áreas (PCO), informou não ter bens a declarar.

