De nenhum recurso declarado a mais de R$ 2 milhões disponíveis para a campanha. A disputa eleitoral entre lideranças políticas com base em Juiz de Fora está marcada, até então, por uma diferença milionária no financiamento, reflexo tanto das verbas destinadas pelos partidos quanto da arrecadação obtida por outras fontes, como doações de pessoas físicas. A Tribuna de Minas levantou quanto cada candidato recebeu, segundo a prestação parcial de contas, e de onde vem o dinheiro que financia as campanhas.
Ao todo, Minas Gerais chega as eleições com 998 candidatos para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e 756 nomes querendo um espaço na casa baixa do Congresso Nacional. Em um universo de mais de 1,7 mil candidaturas aos Legislativos estadual e federal, os recursos disponíveis para bancar as campanhas variam de forma significativa – e ajudam a revelar quais nomes ligados a Juiz de Fora concentram maior aporte financeiro na corrida eleitoral. Em 2026, as campanhas podem receber recursos dos partidos, incluindo verbas dos fundos eleitoral e partidário, além de doações de pessoas físicas e de outras candidaturas. Os candidatos também podem usar dinheiro próprio, recorrer ao financiamento coletivo e arrecadar recursos com eventos, dentro das regras da Justiça Eleitoral.
Fundo eleitoral concentra recursos, mas doações também pesam
O cientista político e professor titular do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPGCOM UFJF), Luiz Ademir de Oliveira, frisa que a maior parte dessas campanhas são sustentadas por dinheiro público – aquele que compõe o fundo eleitoral e que, em 2026, chega ao valor de R$ 4,9 bilhões. Esse montante é dividido entre partidos a partir de sua bancada no Congresso – isso significa, na prática, que quanto maior essa bancada mais recurso público determinado partido recebe.
No país, o Partido Liberal (PL) recebeu a maior fatia, com R$ 882 milhões, seguido pelo Partido dos Trabalhadores (PT), com R$ 615 milhões, e pelo União Brasil, com R$ 526 milhões. Juntos, “eles representam 41% de todo o fundo eleitoral”, destaca Luiz Ademir. A concentração dos recursos entre as legendas ajuda a explicar parte das diferenças observadas nas campanhas.
A distribuição interna do dinheiro, no entanto, também passa por critérios e prioridades estabelecidas por cada direção partidária. Segundo o professor, entram nessa definição, por exemplo, levantamentos internos, a consolidação dos nomes dentro das legendas e o potencial eleitoral de cada candidatura.
“Há uma disparidade entre os que estão tentando a reeleição, os que já têm o nome mais consolidado no campo político daquele partido, e os que estão estreando”, observa. Assim, postulantes que ocupam ou já ocuparam cargos eletivos tendem a receber mais recursos e espaço nas siglas.
Para reduzir a disparidade de recursos entre as candidaturas, a legislação eleitoral estabelece limites para os gastos de campanha. Em 2026, o teto é de R$ 3.176.572,53 para candidatos a deputado federal e de R$ 1.270.629,01 para deputado estadual.
“É uma forma de tentar equilibrar um pouco os investimentos de campanha”, explica o cientista político sobre as normas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele relembra também que não é somente de dinheiro público que as campanhas eleitorais se sustentam: há, também, as doações.
Embora as doações de empresas a partidos e campanhas eleitorais tenham sido declaradas inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2015, pessoas físicas continuam autorizadas a contribuir. Com isso, empresários podem fazer doações em nome próprio. Os valores variam, mas não são raros os repasses que chegam a dezenas de milhares de reais.
“Há uma mobilização em termos de grupos de interesse no que a gente pode chamar ‘nesse mercado político-eleitoral’. Então, dentro dessas doações, há casos, lógico, que são de boa vontade e outras que não são ingênuas”, esclarece Luiz Ademir, que avalia que a proibição das doações empresariais não eliminou a influência de interesses econômicos sobre o financiamento eleitoral. Um movimento que também ajuda a explicar a presença de doações de alto valor.
Essas contribuições podem estar associadas à expectativa de que, uma vez eleito, o candidato defenda pautas de interesse e alinhados aos grupos econômicos ou sociais aos quais os doadores estão ligados.
“Esse esforço, inclusive financeiro, mobilizado para eleger determinado candidato tem a ver com lobbies que serão defendidos depois”, projeta o cientista político.
Luiz Ademir cita como exemplo candidaturas identificadas com setores específicos da sociedade. Um político ligado ao agronegócio, segundo ele, pode concentrar doações de pessoas vinculadas ao setor, enquanto candidatos próximos ao movimento sindical ou da educação podem receber recursos de indivíduos ligados a esses segmentos.
Na disputa federal, campanhas de JF vão de R$ 140 a quase R$ 3 milhões
Candidata à reeleição, Ana Pimentel (PT), integrante da Federação Brasil da Esperança (PT/PC do B/PV), conta, até então, com R$ 2.875.600,00 em total líquido de recursos recebidos, de acordo com dados da Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais do TSE. A direção nacional do PT destinou R$ 2.830.500,00, oriundo do fundo especial do partido e que corresponde a cerca de 98,44% do recurso recebido até este momento. A outra parte da receita da candidatura de Ana vem de doações de pessoas físicas, que chegaram a contribuir com valores que variam entre R$ 100 a 15 mil reais. Até o momento, a ex-secretária de saúde de Juiz de Fora e atual deputada federal é a liderança que possui maior recurso financeiro na sua busca pela reeleição entre os candidatos da cidade.
Marilda Simeão, também do PT, recebeu uma fatia menor do partido. A pedagoga conta com R$ 70.980,00 da direção nacional e R$ 50 reais recebidos por meio de campanha de financiamento coletivo. Não houve doações diretas por CPF.
Já Wadson Ribeiro (PcdoB), que também integra a Federação Brasil da Esperança, recebeu até agora, R$ 2.214.342,50 – sendo que a maior parte desse recurso (cerca de 99,13% do total) foi do fundo especial do partido: R$ 2.195.000,00. O restante consta como doações de pessoas físicas, que desempenharam desde R$ 945 a outras seis pessoas que doaram, cada uma o mesmo valor de R$ 3.066,25.
Ex-vereador de Juiz de Fora e ex-deputado federal, Charlles Evangelista (PL) busca retornar a carreira política-eleitoral tendo, até então, R$ 1.533.127,89 de recursos para a campanha. Destes, R$ 1.490.000,00 é oriundo da direção nacional do partido, R$ 30 mil de recursos próprios, R$ 10.127,89 da direção estadual do Partido Liberal e R$ 3 mil de doações de pessoa física.
A direção nacional do PL, entretanto, destinou uma verba maior para outra candidata juiz-forana ao Congresso: Delegada Ione, que tenta a reeleição, recebeu R$ 2.590.000,00 somente da direção nacional do partido. Outras três doações de pessoas físicas no valor entre R$ 1.600 e R$ 2.490,04 compõe o fundo de mais de 2,5 milhões de reais.
Repasses variam até entre candidatos do mesmo partido
Já o Sargento Mello-Casal (PL), atual vereador da cidade e que concorre, pela segunda vez, a uma das 53 cadeiras na Câmara dos Deputados, teve a menor prioridade dentro do próprio partido. Ele chega a campanha com R$ 424.000,00 de recursos, sendo R$ 290 mil, da direção nacional do partido, 80 mil da direção do PL Minas e 54 mil reais em uma doação única de pessoa física.
Katia Dias (PSB), suplente que assumiu o posto, temporariamente, de deputada federal em 2025 tenta, neste ano, obter um novo mandato: ela já conta com R$ 2.260.500,07 para a campanha. A maior parte dos recursos, R$ 2,2 milhões vieram da direção nacional do partido e o restante ela recebeu de doadores, que contribuíram em valores que chegaram a R$ 18 mil, embora há, também, uma doação de sete centavos.
O ex-vereador de Juiz de Fora Vagner de Oliveira (MDB), chega à campanha com recursos provenientes exclusivamente da direção nacional do partido, que destinou R$ 212.250,00 à candidatura. Com quantias mais tímidas, também entra na disputa a um cargo no congresso Ely Machado (PSDB). Ele conta com R$ 30.100,00 para a campanha – destes R$ 100 é oriundo de uma doação de pessoa física e o restante da direção nacional do partido.
A cabeleireira Angela Cristina (Republicanos) soma R$ 179.123,00 em recursos de campanha, sendo R$ 100 mil repassados pela direção nacional do partido e R$ 79.123,00 pela direção estadual.
Chafic Lays (Solidariedade), por sua vez, recebeu R$ 95 mil da direção nacional e R$ 2.773,95 da estadual, além de uma doação de R$ 805,50 feita pela campanha de Mateus Simões (PSD), atual governador de Minas e candidato à reeleição. A Federação Renovação Solidária, da qual Solidariedade faz parte ao lado do PRD, integra a coligação “Minas no Caminho Certo”, que sustenta a candidatura de Simões.
Com valores menores, Gabriel Serpa Motoboy (Novo) recebeu R$ 22 mil da direção nacional da legenda e destinou R$ 100 em recursos próprios à campanha.
Já o vendedor Alex Fontoura (Mobiliza) declarou, até o momento, apenas R$ 140, provenientes de recursos próprios.
Na disputa estadual, recursos variam de zero a mais de R$ 1 milhão
Na busca por mais quatro anos na Assembleia Legislativa, a Delegada Sheila (PL) já conta com R$ 1.020.426,67 para a campanha. Desse total, R$ 995 mil foram repassados pela direção nacional do partido e R$ 12.426,67 pela direção estadual. A candidata também investiu R$ 10 mil em recursos próprios e recebeu outros R$ 3 mil em doação de pessoa física.
Também pelo PL, a vereadora Roberta Lopes, que disputa pela primeira vez uma vaga de deputada estadual, já recebeu R$ 773.191,62 para a campanha. Desse total, R$ 660 mil foram repassados pela direção nacional da legenda, cerca de R$ 113 mil pela direção estadual e R$ 100 vieram de uma doação de pessoa física.
Assim como Roberta, a historiadora Laiz Perrut (PT) exerce atualmente mandato de vereadora na Câmara Municipal de Juiz de Fora e também concorre a uma vaga na ALMG. No entanto, quanto ao recurso financeiro à respectiva campanha, até então, Laiz recebeu R$ 401.068,57, sendo R$ 367.328,57 da direção nacional do PT e R$ 6.500 em recursos próprios. Na prestação de contas já feita, consta uma doação no valor de R$4 mil da candidatura de Ana Pimentel, correligionária petista, além de outras doações de pessoas físicas, que variam de R$ 40 a R$ 20 mil.
Betão (PT), outro nome de Juiz de Fora na disputa pela reeleição, soma R$ 454.252,00 em recursos de campanha, montante um pouco superior ao de Laiz, que tenta conseguir pela primeira vez o cargo no Legislativo estadual. Até o momento, o deputado estadual tem R$ 265.500,00 que foram repassados pela direção nacional do partido. O candidato ainda destinou R$ 125 mil em recursos próprios à campanha, enquanto o restante veio de doações de pessoas físicas, com valores que variam de R$ 2 mil a R$ 20 mil.
Recursos próprios e doações complementam campanhas
Henrico Barboza de Moura (PT) estreia nas eleições deste ano, tendo, até então, R$ 139.543,00 em recursos de campanha. Desse total, R$ 15.500,00 foram repassados pela direção nacional do partido, valor inferior ao de uma única doação de pessoa física, de R$ 30 mil. A prestação de contas registra ainda R$ 580 arrecadados por meio de financiamento coletivo. Entre os doadores está Pedro Rousseff (PT), vereador de Belo Horizonte, sobrinho da ex-presidente Dilma Rousseff e candidato à Câmara dos Deputados.
Natural de Belo Horizonte e eleito vereador em Juiz de Fora, Tiago Bonecão (Democrata) se afastou do mandato para disputar uma vaga de deputado estadual nas eleições de 2026. O candidato soma R$ 67 mil em recursos de campanha e, até o momento, não recebeu repasses do partido. Do total declarado até então, R$ 20 mil foram destinados pelo próprio candidato, enquanto o restante veio de doações de pessoas físicas, com valores que variam de R$ 2 mil a R$ 12,5 mil.
Com longa trajetória política, Noraldino Júnior (PSB) chega à campanha com R$ 548.501,00 em recursos já declarados. A maior parte, R$ 480 mil, foi repassada pela direção estadual do partido, enquanto R$ 13 mil correspondem a recursos próprios. A outra parte veio de doações de pessoas físicas, todas no valor de R$ 1 mil. No mesmo partido, a agricultora Carlinha conta com R$ 12 mil, integralmente repassados pela direção nacional do PSB, e, até o momento, não registra doações de pessoas físicas. Já o Professor Bruno (PSB) ainda não declarou o recebimento de recursos para a campanha.
Em campanha para a Assembleia Legislativa, o vereador Dr. Antônio Aguiar (União Brasil) soma, até o momento, R$ 170.600,00 em recursos. Desse total, R$ 142 mil foram repassados pela direção nacional do partido e R$ 600 correspondem a recursos próprios. Os R$ 28 mil restantes vieram de dois doadores, com contribuições de R$ 18 mil e R$ 10 mil.
Candidato a vereador em 2024, Drácula (Agir), neste ano busca ser eleito, pela primeira vez, como deputado estadual. Ele recebeu, até agora, recebeu R$ 10 mil da direção nacional da legenda e ainda não registra doações de pessoas físicas.
Já Henrique Ferreira (PP) conta com R$ 20 mil para a campanha ao Poder Legislativo estadual. Esse valor integralmente repassado pela direção nacional do Progressistas.
